Título: Desafio ético
Autor: Dervis, Kamel
Fonte: O Globo, 13/12/2007, Opinião, p. 7
Imagine que um enorme asteróide está avançando em direção à Terra. Os cientistas afirmam que há uma probabilidade de 10% de colisão nos próximos 10 anos e que as conseqüências serão catastróficas. Seu governo o aconselha a não entrar em pânico, lembrando que há 90% de chance de que o asteróide não irá atingir a Terra. Você decide não se preocupar ou exige que o governo mobilize todos os recursos disponíveis para eliminar o risco?
Sabemos que mesmo neste cenário fictício, porém não impensável - e uma variante da abertura do excelente livro de Scott Barrett sobre questões globais -, o mundo agiria sem pensar duas vezes para encontrar uma solução. Os governos investiriam no que fosse necessário para desviar o asteróide de sua trajetória.
A analogia com a mudança climática não é perfeita. A catástrofe em potencial para o mundo como um todo é mais bem caracterizada como um risco a longo prazo. Por outro lado, seria mais preciso comparar as mudanças climáticas a uma família de asteróides: um bem grande ameaçando a todos nós, porém mais distante; e um grupo de asteróides de médio porte, que deverá atingir os países mais pobres, em latitudes mais baixas, muito mais cedo e com um grau de certeza muito maior do que o grande asteróide.
Conforme concluiu o relatório final do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, as alterações no clima são agora um fato cientificamente estabelecido. Muitas incertezas ainda permanecem, mas sabemos o suficiente para reconhecer que existem grandes riscos de longo prazo, entre os quais o derretimento das calotas de gelo na Groenlândia e no Oeste da Antártica, a enorme perda de biodiversidade e as mudanças no curso da Corrente do Golfo, que irão alterar seriamente os padrões climáticos e se constituir em um risco para a Humanidade como um todo.
O "Relatório de Desenvolvimento Humano do Pnud 2007/2008 - Combater as mudanças do clima: Solidariedade humana em um mundo dividido", divulgado no final de novembro em um evento promovido pelo presidente Lula, tem seu foco no desafio que estas mudanças representam para o desenvolvimento. Caso as temperaturas médias subam mais 2ºC ou 3ºC em relação aos níveis atuais, poderíamos presenciar outras 600 milhões de pessoas na África Subsaariana passarem fome; mais de 300 milhões a mais de pobres serem forçados a abandonar suas casas em função de enchentes, e 400 milhões de pessoas expostas a doenças como malária, meningite e dengue. O fato de medidas não serem tomadas terá conseqüências graves para o desenvolvimento humano em alguns dos lugares mais pobres do mundo e irá minar os esforços para lidar com a pobreza.
Os países mais pobres serão os mais afetados pelas mudanças climáticas no curto prazo, embora tenham contribuído muito pouco para a formação do estoque de gases que provocam o efeito estufa. Isto introduz um desafio ético: ações passadas e atuais dos países ricos ameaçam de imediato alguns dos povos mais vulneráveis do mundo.
O desafio da mudança climática exigirá a tomada de medidas de forma coletiva, com participação global, mas o senso de justiça e a viabilidade política impõem aos países ricos a liderança e atuação inicial. Imagine que, se cada pessoa no mundo em desenvolvimento tivesse o mesmo padrão de consumo de carbono de um cidadão comum no Canadá ou nos EUA, precisaríamos de nove planetas para absorver toda a poluição. Mas nós dispomos apenas de um planeta.
Os países ricos possuem os recursos financeiros e capacidade tecnológica para iniciarem cortes profundos no nível de emissões. O Relatório de Desenvolvimento Humano enfatiza que a atribuição de preços ao uso de carbono é a principal exigência. Precisamos urgentemente de fortes sinalizações de preços para dar suporte a uma transição para baixos níveis de carbono. Serão necessários enormes investimentos para proporcionar a energia que deve continuar a sustentar o crescimento mundial. É crucial que estes investimentos sejam realizados de uma forma que proteja nosso clima.
Conforme conclui o relatório, as gerações futuras irão julgar de forma bastante severa uma geração que olhou para as evidências da mudança climática, compreendeu as conseqüências, e mesmo assim prosseguiu em uma trajetória que condenou milhões dos mais vulneráveis do planeta à pobreza e expôs as gerações futuras ao risco de desastre ecológico.
Embora habitemos um mundo onde as pessoas são ainda separadas por um diferencial enorme em termos de riqueza e oportunidades, além de fronteiras nacionais, nossos destinos estão inexoravelmente atrelados pela única coisa que todos nós compartilhamos: o planeta Terra.
KEMAL DERVIS é administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).