Título: São coisas da democracia, afirma Lula, na Venezuela
Autor: Beck, Martha; Paul, Gustavo
Fonte: O Globo, 14/12/2007, O País, p. 3

Presidente diz apenas uma frase sobre derrota na CPMF.

CARACAS. Uma frase curta, e que só saiu no fim do dia. Foi o que se limitou a dizer o presidente Lula sobre a derrubada da CPMF, derrota sofrida pelo governo na madrugada de ontem. A agenda não podia ser mais ingrata. Horas depois de o Senado derrubar o tributo, Lula viajou para a Venezuela e passou o dia ao lado do presidente Hugo Chávez, que, como ele, sofreu há poucos dias sua maior derrota política. Ao contrário de Chávez, que chamou de "vitória de mierda" a de seus adversários, Lula engoliu a raiva e foi lacônico.

- São coisas da democracia - afirmou, depois de deixar o Palácio de Miraflores, sede do governo venezuelano.

O presidente chegou a Caracas às 10h10m e passou o dia reunido com Chávez para tratar de acordos nas áreas de agricultura e energia. Nos dois momentos em que apareceu publicamente, Lula esforçou-se para parecer descontraído. No início da noite, mesmo discursando por 37 minutos, de improviso, nada disse sobre a CPMF. Apenas hoje, no Brasil, deve tratar do assunto.

Mais cedo, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, afirmou que conversou com Lula de madrugada e que o presidente está otimista:

- Ele acredita na força do país. Não reclamou de nada. Esta é uma das maiores características do presidente: não é homem de queixas. Ele acredita tanto no país que amanheceu otimista.

Apesar de o governo ter perdido uma receita de R$40 bilhões anuais, ontem, com a rejeição da CPMF, Lula procurou demonstrar que o Brasil, por ser o maior país da América do Sul, deve contribuir com os mais pobres:

- O Brasil tem de pagar o preço de ser a maior economia e o país mais industrializado. O Brasil está disposto a estender a mão aos países mais frágeis que precisam se desenvolver.

Lula fez questão de elogiar "a democracia venezuelana". Ele foi o primeiro presidente a visitar Chávez depois da derrota que sofreu no referendo que lhe daria poderes ilimitados.

- A Venezuela está exercendo a democracia em sua plenitude, e o povo pobre está tomando café da manhã, almoçando e jantando.

O presidente brasileiro, que já declarou várias vezes ser contrário a um terceiro mandato, brincou com a duração do mandato dos governantes, ao afirmar que o tempo é curto demais para fazer todas as coisas que se deseja.

- Como o mandato é menor do que gostaríamos que fosse e infinitamente maior do que a oposição gostaria que fosse, muitas vezes ficamos inquietos porque tomamos decisões e elas não andam como gostaríamos.