Título: Mau humor no mercado
Autor: Frish, Felipe
Fonte: O Globo, 14/12/2007, Economia, p. 33
DERROTA NO CONGRESSO
Com vitória da oposição na votação da CPMF, Bolsa cai 2,90% e anula ganhos no mês.
Aderrota do governo na votação da prorrogação da CPMF no Senado, na madrugada de ontem, foi um balde de água fria no mercado financeiro brasileiro. Já com a influência pessimista dos mercados internacionais após a ação conjunta dos bancos centrais mundiais na véspera, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrou em queda de 2,90% no dia, aos 62.860 pontos no seu principal indicador, o Ibovespa. As perdas anularam os ganhos da Bolsa no mês, acumulados em 2,75% até a véspera. No mesmo rumo negativo para a economia brasileira, o dólar comercial avançou 0,39%, para R$1,783.
Mas um dos indicadores mais relevantes do estresse do mercado foram os contratos de juros futuros, negociados entre instituições financeiras na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). Os contratos DI (de depósitos interfinanceiros), para vencimento em janeiro de 2010, encerraram o dia em alta de 0,29 ponto percentual. Ou seja, apontando juros de 12,73% ao ano até lá, contra os atuais 11,25% da taxa básica de juros da economia, a Selic.
- Isso mostra que o mercado está atribuindo maiores riscos para a economia lá na frente. A possibilidade de alta dos juros, que antes era inimaginável, não pode ser desprezada hoje - diz Alexandre Póvoa, diretor da Modal Asset Management.
Até então, era quase consenso no mercado que o Banco Central (BC) voltaria a reduzir a Selic no segundo semestre de 2008, lembra Póvoa. Para o economista, o grande medo do mercado agora é que, com as despesas do governo crescendo e sem a receita da CPMF, o BC opte por aumentar os juros pela Selic - usados para remunerar os títulos da dívida interna e externa - para se financiar.
Ação de BCs lá fora influencia Bovespa
Além disso, com a demanda aquecida, diz Póvoa, há o medo de volta da inflação. Isso aumentou ontem, com a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, que decide o rumo dos juros. O documento deixa clara essa preocupação. Com inflação em alta, o remédio do BC é elevar os juros.
Para Póvoa, a solução ideal seria um simples corte de despesas pelo governo, mas o mais provável, avalia, é uma solução intermediária, que envolva corte de despesas e aumento de outros tributos.
De modo geral, o mercado considerou positivo o anúncio do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ontem, de que o governo não irá mexer no superávit fiscal. Mas os investidores não deixaram o pessimismo de lado, aguardando as medidas efetivas do governo para o Orçamento de 2008, explica George Sanders, gestor de renda variável da Infinity Asset. As medidas devem ser anunciadas até semana que vem.
- Aí, o mercado pode melhorar, mas a notícia (da perda da arrecadação da CPMF) é bastante ruim - afirma Patrícia Branco, sócia da gestora de fundos Global Equity.
Mas nem todo o mau humor do mercado financeiro ontem pode ser atribuído ao fim da CPMF, avalia Álvaro Bandeira, economista-chefe da corretora Ágora. Ele lembra que o dia já começou negativo, influenciado pelos mercados estrangeiros. As quedas seriam em reação ao pacote conjunto de ajuda oferecido na véspera pelos BCs americano, inglês, europeu, canadense e suíço. O grupo injetou cerca de US$90 bilhões nos mercados financeiros de seus respectivos países, oferecendo linhas de crédito para bancos comerciais, a fim de atenuar a crise de crédito.
Bolsas caem na Ásia e na Europa até 3%
O Banco do Japão aderiu ontem à iniciativa, afirmando que vai garantir o fornecimento de recursos ao mercado. Mas as bolsas asiáticas fecharam em queda. Em Tóquio, o Nikkei recuou 2,5%. A maior queda foi dos papéis do banco japonês Mitsubishi UFJ: 8%. A Bolsa de Hong caiu 2,72% e a de Xangai, 2,7%.
Na Europa, a situação não foi diferente. O índice FTSE, da Bolsa de Londres, encerrou em baixa de 2,98%. As quedas das ações dos bancos dominaram o mercado. O Northern Rock caiu 13% após divulgar perdas de 281 milhões de libras (US$574 milhões). O Royal Bank of Scotland recuou 6,2% e o Barclays, 5,9%. Em Frankfurt, o índice DAX caiu 1,83%, enquanto o CAC, de Paris, perdeu 2,65%.
- O mercado entendeu que, se cinco bancos centrais estão aportando dinheiro para títulos de diversos prazos, talvez eles saibam mais do que nós o tamanho do prejuízo - afirma Bandeira, ressaltando que, na véspera, a reação dos mesmos mercados foi exatamente a inversa, recebendo bem as medidas.
Wall Street, porém, reduziu as perdas no fim do pregão, que também foi afetado pela maior inflação no atacado em 34 anos. O Dow Jones fechou em alta de 0,33%. Já o Nasdaq recuou 0,10%. Segundo analistas, o cenário ruim dos bancos foi compensado pela alta de 1,2% nas vendas do varejo em novembro, o dobro das expectativas, de 0,6%.
O risco-Brasil - que mede o grau de confiança dos estrangeiros - fechou em queda de 1,9%, aos 206 pontos centesimais, contra a corrente do mercado local e a tese de que a perda da CPMF pode atrasar a obtenção do investment grade (grau de investimento, classificação dada pelas agências de risco) pelo país.
(*) Com agências internacionais