Título: Natal de 196 mortos nas estradas
Autor: Franco, Bernardo Mello
Fonte: O Globo, 27/12/2007, O País, p. 3

Foi o mais violento nos últimos 20 anos; mais carros e crise aérea teriam sido fatores.

As festas de Natal deixaram as marcas de uma calamidade nas estradas brasileiras. No feriado mais violento do ano, 196 pessoas morreram e 1.870 ficaram feridas, apenas nas rodovias federais. Durante os cinco dias da Operação Natal, realizada entre o primeiro minuto de sexta-feira e a meia-noite de terça, a Polícia Rodoviária Federal registrou 2.561 acidentes. Os números superam até os do carnaval, marcado pelo forte consumo de bebidas alcoólicas, quando houve 2.417 acidentes, com 145 mortos e 1.587 feridos. Em relação ao Natal do ano passado, a quantidade de acidentes cresceu 2,7%, mas as mortes saltaram 51,9%, e os feridos, 16%.

Segundo o coordenador de Controle Operacional da PRF, inspetor Alvarez Simões, as rodovias federais tiveram um aumento de 30% na movimentação de veículos em relação ao fim de 2006. Ele atribuiu a alta ao aquecimento das vendas de automóveis e à crise nos aeroportos, que teriam levado mais famílias a optar pelas estradas na hora de viajar. O policial disse ainda que este foi, provavelmente, o Natal mais violento nas estradas dos últimos 20 anos. Ele lembrou, porém, que a noite de Natal caiu no fim de semana nos últimos dois anos.

Prisões por uso de álcool dobraram

A imprudência dos motoristas também voltou a ser determinante para os acidentes. Levantamento nos postos policiais mostra que 80,75% das colisões acontecem em trechos com asfalto em boas condições, 71,4% em retas, 53,6% em plena luz do dia e 63% com tempo bom. Segundo a PRF, um terço dos condutores admite que a causa do acidente foi falta de atenção.

- Nosso problema não é muito carro para pouca estrada, mas pouca educação para muito motorista. As pessoas só obedecem aos limites de velocidade quando sabem que estão sendo fiscalizadas por radares. Nos outros trechos, sentem-se liberadas para correr - disse o inspetor.

O balanço da PRF mostra que um motorista recebeu multa a cada cinco que foram parados. Na Operação Natal, os agentes fiscalizaram 94.804 veículos e fizeram 18.536 autuações. Foram apreendidos 1.141 automóveis por má conservação ou falta de documentos, quantidade suficiente para encher 95 caminhões-cegonha. As prisões por embriaguez ao volante tiveram um aumento de 107% - de 71 em 2006 para 147 neste feriado.

Denatran defende multas mais altas

A coordenadora da campanha Vida Urgente, Diza Gonzaga, cobrou pressa do governo para proibir a venda de bebidas alcoólicas na beira de estradas. A medida foi prometida em maio pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, mas ainda não tem data para sair do papel.

- Infelizmente, o álcool continua a ser o grande vilão do trânsito. Bebida e volante fazem uma dupla de morte, mas os brasileiros ainda acreditam que isso é apenas um slogan - lamentou Diza, que também pediu mais operações com bafômetros. - Parece que a fiscalização está mais interessada em checar documentos do que em salvar vidas.

O diretor do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), Alfredo Peres do Nascimento, defendeu a aplicação de multas mais pesadas como forma de reduzir os acidentes. Ele informou que vai sugerir ao ministro das Cidades, Márcio Fortes de Almeida, a fixação de novo índice para reajustar os valores cobrados aos motoristas infratores. O Código de Trânsito Brasileiro estabeleceu a correção pela Unidade Fiscal de Referência (Ufir), extinta em 2000. Desde então, as multas estão congeladas.

- Constatamos que o valor das multas ficou baixo, enquanto os acidentes seguem aumentando - afirmou o diretor do Denatran.

O cruzamento das estatísticas da Operação Natal com um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre os impactos dos acidentes nas rodovias, divulgado no fim de 2006, mostra que os acidentes com mortos e feridos no feriado provocaram um prejuízo de R$111,1 milhões à economia brasileira. O cálculo do Ipea inclui gastos com remoção e internação das vítimas, pagamento de seguros e perda de produtividade.

Estado com a maior malha viária federal, Minas Gerais é o que mais teve acidentes no país, com 460 colisões no Natal. Em seguida, Santa Catarina (297), São Paulo (235), Rio Grande do Sul (205) e Paraná (151). As rodovias mineiras também tiveram o maior número de mortes no feriado: 26. A Bahia ficou em segundo lugar, com 20 vítimas fatais, seguida de Santa Catarina (19), Mato Grosso (14) e Paraná (14).

No Rio, número de mortos caiu

O acidente mais violento do feriado nas estradas federais aconteceu no domingo, quando um ônibus que trafegava sem licença para transportar passageiros bateu de frente com uma carreta na BR-020, em São Desidério (BA), deixando 11 mortos e 23 feridos.

Na contramão da maioria dos estados, o Rio de Janeiro registrou queda nas estatísticas de mortos e feridos nas rodovias federais neste Natal. Quatro pessoas perderam a vida nas estradas, uma queda de 35% em relação ao feriado do ano passado. Outras 74 pessoas ficaram feridas, uma redução de 15% na comparação com 2006. Apesar da queda no número de vítimas, os registros de acidentes no estado cresceram 45%, de 147 para 205.