Título: Indústria batendo no teto
Autor: Nogueira, Danielle
Fonte: O Globo, 31/12/2007, Economia, p. 15
Para atender à demanda, empresas ampliam capacidade, quadro de pessoal e horas extras.
Danielle Nogueira
Crédito farto, aumento da massa salarial e maior gasto público impulsionaram a demanda por bens industriais em 2007, levando setores da indústria de transformação a beirar o teto da capacidade instalada. Dados do último levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que 17 dos 19 segmentos pesquisados avançaram na ocupação da capacidade nos dez primeiros meses do ano, com destaque para máquinas e equipamentos - apenas um setor apresentou queda e um se manteve estável. Para atender à crescente demanda, empresas de diferentes setores vêm lançando mão de estratégias que vão de investimentos em expansão de capacidade a contratação de funcionários e aumento de horas extras. Tudo para não perder o bom momento da economia.
O setor de máquinas e equipamentos apresentou crescimento de 4,3% do uso de capacidade ante janeiro a outubro de 2006, acima da média de 2,2% da indústria de transformação como um todo. Na pesquisa da CNI, o segmento só perde para o de artigos de couro, que, assim, como o de vestuário, teve aumento expressivo este ano. Não por aumento de demanda, e sim por redução da oferta.
- Fechar fábricas foi a estratégia desses dois setores exportadores, para sobreviver ao dólar desvalorizado. Com menos indústrias, a pressão sobre as remanescentes é maior - explica o economista da CNI Paulo Mol, que projeta alta de 5% do PIB industrial em 2008, ante 5,8% em 2007.
Riscos a médio e longo prazos
O salto no faturamento do setor de máquinas e equipamentos é mais um indício de forte aquecimento. Segundo a associação das fabricantes do setor, a Abimaq, houve aumento de 13% de janeiro a outubro de 2007, para US$11 bilhões, na comparação com igual período de 2006. A expansão só não foi maior porque o dólar fraco estimulou as importações. Nos 10 primeiros meses do ano, elas cresceram 31,8% em valores, acumulando US$22 bilhões.
- Em termos quantitativos, a expansão da economia em 2007 se assemelha à de 2004, mas há diferenças qualitativas. O crescimento em 2007 foi liderado pelo mercado doméstico, ao contrário de 2004. E os bens de capital foram o destaque, o que sinaliza um ciclo de crescimento virtuoso. É a indústria estimulando a própria indústria - diz o coordenador do grupo de indústria do Instituto de Economia da UFRJ, David Kupfer.
Na Metso Minerals, fabricante de equipamentos finlandesa, a ocupação da capacidade instalada alcançou 90%, repetindo o nível elevado de 2006. Nos últimos dois anos, a empresa ampliou a capacidade da fábrica em Sorocaba (SP) e elevou o número de funcionários em 10%, totalizando 1.300 empregados. Segundo o gerente-executivo da Área Comercial da Metso, Eduardo Kubric, a demanda tem sido puxada pelos setores de mineração, siderurgia e construção pesada.
- O mercado de construção vem crescendo bastante - diz ele, que prevê fechar o ano com faturamento ao redor de R$1 bilhão, 25% maior que os R$800 milhões de 2006.
Outro segmento que vem beirando o limite é o de veículos, que em outubro atingiu 89,1% da capacidade industrial. O nível é comparável ao de setores como refino e metalurgia, que precisam operar próximo ao teto, por questões de escala.
O aquecimento da indústria automotiva é percebido tanto por fabricantes de carros como por fornecedores de peças. A Fiat planeja investir R$5 bilhões até 2010 para ampliar oito fábricas. Em Betim (MG), a empresa trabalha com terceiro turno desde fevereiro e, pelo segundo ano consecutivo, parte dos funcionários não teve descanso no fim do ano, a fim de assegurar a entrega de encomendas, que cresceram 30% em 2007, um recorde. Para 2008, a expectativa é de alta de 15% nas vendas.
Na unidade de Cotia (SP) da fabricante de autopeças Delphi, 23% da carga horária dos funcionários são hora extra. A empresa também ampliou a fábrica do Espírito Santo do Pinhal (SP) e inaugurou outra em Jacutinga (SP), para permitir o crescimento de 25% em 2007 e a projeção de 10% das vendas em 2008.
- A oferta de crédito, a maior renda per capita e a estabilidade relativa do preço dos combustíveis geram confiança por parte do consumidor - diz Gábor Deák, presidente da Delphi na América do Sul.
O único setor que apresentou retração do uso de capacidade instalada na pesquisa da CNI foi o de material eletrônico e comunicação (-5%). Mas até nele há nichos de mercado em que a produção está no limite, caso dos fabricantes de celulares. Na LG, a ocupação da unidade de Taubaté (SP), onde os telefones são fabricados, supera os 90%, mesmo após a expansão das instalações, o que levou a empresa a planejar nova ampliação para 2008.
- Continuamos acreditando na economia. Além disso, os celulares de terceira geração e a troca de aparelhos devem manter as vendas elevadas - afirma o diretor comercial de vendas de celulares da LG, Alexandre Jesus, que estima o mercado de reposição em 30 milhões de unidades.
Apesar do crescimento acelerado da indústria de transformação, os especialistas não temem entraves a curto prazo. Para Kupfer e Mol, os setores com capacidade comprometida estão investindo, superando os gargalos. A médio e longo prazos, no entanto, a insuficiente oferta de energia, a deficiente malha de transportes e a pesada carga tributária poderão travar a expansão industrial.