Título: Gasolina mais cara, só com petróleo a US$130
Autor: Tavares, Mônica
Fonte: O Globo, 06/01/2008, Economia, p. 29

Ministro de Minas e Energia acredita que os preços internacionais do barril devem ceder nos próximos meses.

BRASÍLIA. O ministro interino de Minas e Energia, Nelson Hubner, não parece assustado com a escalada dos preços do petróleo, que chegou a bater US$100 na semana passada, num marco histórico. Para ele, a cotação está em um "patamar muito alto" e a tendência, segundo ele, é que caia um pouco. Com isso, o ministro não prevê reajuste de preços de combustíveis a curto prazo.

- A não ser que dispare o preço para US$130 e se estabilize por três a quatro meses, aí com certeza a gente vai ter que ter aumento. Mas eu não acredito que vai acontecer - disse Hubner, que ocupa o cargo interinamente desde maio do ano passado. Sua substituição é esperada ainda para este mês. Um dos nomes mais cotados para sucedê-lo é o do senador Edson Lobão (PMDB-MA), apadrinhado do ex-presidente José Sarney.

Hubner diz que o repique de preços de petróleo experimentado neste início de ano é sazonal, refletindo o inverno rigoroso no Hemisfério Norte, principalmente nos Estados Unidos, com aumento da demanda. O ministro aposta que os preços deverão cair no mercado internacional nos próximos meses.

O ministério acompanha a evolução histórica da cotação do barril. Segundo Hubner, observando desde 2005, em alguns períodos a Petrobras chegou a ganhar com a diferença entre o preço doméstico e o internacional.

O último aumento de preços dos combustíveis pela estatal foi em agosto de 2005, quando o preço da gasolina subiu R$0,10 por litro. Logo depois, contou o ministro, a cotação no mercado internacional "despencou". Mas o preço fixado nas bombas foi mantido no mesmo patamar.

Em junho do ano passado, os preços internacionais da gasolina começaram a ficar acima do valor cobrado pela Petrobras, mas Hubner disse que a companhia não está perdendo. Segundo ele, a empresa está deixando de ganhar mais do que se exportasse, porque o valor não reflete os custos de produção.

Além disso, ponderou, o que a estatal deixou de ganhar com a alta dos preços foi compensado com a queda do dólar no Brasil (de mais de 17% em relação ao real). Portanto, afirmou, a Petrobras não está reajustando seus preços porque ainda tem margem. Quanto ao GLP (gás de cozinha), ele admitiu que a Petrobras perde numa análise de longo prazo.

- Quase todo o tempo (perde), mas aí é política mesmo. Não precisa aumentar não (o botijão). Até porque ela ganha demais nos outros (derivados do petróleo) - afirmou Hubner, que descarta ainda elevação do diesel devido à obrigatoriedade de adição de 2% de biodiesel.

Novo leilão do Madeira terá preço de energia menor

Hubner adiantou que o leilão da usina hidrelétrica de Jirau, a segunda do rio Madeira, será realizado em 9 de maio e, com certeza, a tarifa máxima definida será menor do que a fixada para Santo Antônio (R$122 o MWh, que acabou reduzida em 35% na licitação, para R$78,87).

Ele contou que já começaram as reuniões com o Tribunal de Contas da União (TCU) e com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para a elaboração do edital. Também serão licitadas pelo governo outras cinco usinas, em julho, localizadas no rio Parnaíba.

- Para todas elas foi feito o estudo ambiental pela Chesf, desde maio do ano passado, e estamos discutindo com o Ibama para conseguir licenciá-las até maio ou junho. O leilão está previsto para julho - disse o ministro. - Mas tem uma outra usina, que é mais complexa, que precisa de licenciamento, mas que a gente tem esperança de conseguir. É Paiquerê, em Santa Catarina.

Hubner disse ainda que o ideal é licitar a usina hidrelétrica de Belo Monte - o próximo empreendimento gigante do país - em 2009, no máximo em 2010. Segundo o ministro, ela é maior do que as usinas do Madeira, mas tem custo mais baixo. Por isso, não se sabe se ela será licitada de uma só vez ou se sua obra será dividida em duas etapas (como foi feito em Tucuruí, no Pará).

Diante desse planejamento, Hubner descartou qualquer risco de apagão e disse que as condições do país são completamente diferentes das de 2001 e 2002, quando houve racionamento. No fim de 2001, lembrou ele, não havia água nos reservatórios das hidrelétricas, o que não acontece atualmente (estão 46% cheios). Além disso, o país conta hoje com mais usinas térmicas e linhas de transmissão. São três ligações Norte-Sul, por exemplo, além de conexões com Tucuruí.

Se sobrar energia, Brasil pode voltar a ajudar Argentina

Quanto à possibilidade de o Brasil auxiliar a Argentina, que está passando por uma crise de abastecimento de energia, Hubner explicou que o problema maior é no inverno, particularmente em agosto. E que, neste momento, o país não está mandando energia ao vizinho:

- O acordo com o Uruguai e com a Argentina é que a gente pode despachar o que não está usando. Durante o inverno, chegamos a mandar 2 mil MW. Não sei se quando chegarmos a julho/agosto teremos energia para enviar. Se for preciso despachar as térmicas, não será possível ajudar no mesmo nível que em 2007. Mas, se for possível, obviamente a gente vai fazer.

Sobre a sua permanência ou não no cargo, ele disse que esta é uma decisão do presidente Lula. Hubner é indicado pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, de quem foi secretário-executivo e com a qual formatou a atual política do setor energético.

- O que tinha que fazer era não deixar parar nada no ministério, até porque é um ministério muito importante e as coisas tinham que acontecer. E a gente está continuando a fazer as coisas como servidor, como eu sempre fui, que tem que cumprir as decisões.