Título: O carnaval que financia o tráfico
Autor: Berta, Ruben; Ramalho, Sérgio
Fonte: O Globo, 11/01/2008, Rio, p. 11

Venda de drogas nos ensaios da Mangueira representa 60% do total, diz a polícia.

Aquadrilha chefiada pelo traficante Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, movimenta semanalmente R$1 milhão com a venda de drogas no Morro da Mangueira e 60% desse valor são arrecadados nos fins de semana, quando acontecem os ensaios da escola, que reúnem até cinco mil pessoas por noite. A estimativa consta de investigações da Polícia Civil, que mapeou 20 pontos de venda espalhados no morro. Ontem, a presidente da agremiação, Eli Gonçalves, a Chininha, e o ex-presidente de bateria Ivo Meirelles foram intimados a prestar depoimento na 17 ª DP (São Cristóvão). O delegado Márcio Caldas quer esclarecer a suposta influência do tráfico na Mangueira.

Chininha e Ivo serão ouvidos dia 16. A polícia espera esclarecer se Tuchinha usava a quadra da escola como uma espécie de escritório do bando. Interceptações de conversas telefônicas, que desencadearam terça-feira a Operação Carnaval, revelam que o traficante - um dos autores do samba-enredo da Mangueira para este ano - continuava a comandar o tráfico no morro. Nas escutas, Tuchinha marca encontros para a venda de drogas na quadra e até autoriza um dos integrantes do bando a comprar e testar uma metralhadora.

Para Márcio Caldas, os depoimentos de Chininha e Ivo vão permitir que a polícia descubra o poder de Tuchinha na escola e se de fato ele usava um acesso exclusivo, que permitia a entrada no camarote da bateria sem passar pela frente da quadra, onde funciona um posto da PM. A polícia também quer saber se Ivo visitou um dos integrantes da quadrilha que está preso em Bangu III. O delegado volta hoje à Mangueira para comandar a demolição da fortaleza construída pelo tráfico na favela. A operação contará com apoio de helicóptero, carro blindado e de uma retroescavadeira. Com 15 metros de extensão e três de altura, a estrutura foi erguida acima de uma creche.

Ivo diz que imóvel é casa de zelador

Ivo afirmou ontem, em entrevista coletiva, que a suposta passagem secreta que seria usada por traficantes para ter acesso ao camarote da bateria dá, na verdade, na casa de um zelador. Segundo ele, o imóvel foi comprado de moradores incomodados com o barulho dos ensaios e estava recebendo obras para abrigar o funcionário, que ficaria responsável pela manutenção do próprio camarote:

- Se aquilo era uma passagem secreta era secreta também para mim. Nunca ninguém usou aquilo a não ser eu, os pedreiros da obra e o caseiro. Ultimamente, era um local com muito entulho de obra.

Ivo Meirelles alegou que todo o dinheiro para as obras do camarote, a compra da casa e a reforma no imóvel anexo foi conseguido por colaborações dos "Amigos da bateria". A comenda foi criada pelo músico em 2006: por uma contribuição anual mínima de R$1.500, era possível ganhar uma carteirinha que dava acesso ao camarote. O local tem ar-condicionado, TV de plasma e DVD.

- Tinha mais de R$20 mil de receita só de alguns nomes. A contribuição mínima era de R$1.500, mas era possível dar mais, R$10 mil, se quisesse. Se você quisesse dar um show, também era possível, como foi o caso do Belo (cantor). O deputado Chiquinho da Mangueira, por exemplo, colaborou com R$2 mil - disse Ivo.

O músico afirmou ainda que o imóvel que seria supostamente usado por traficantes foi comprado inicialmente para auxiliar no escoamento de esgoto vindo de um banheiro do camarote. Recentemente, além da construção de uma cozinha e de um cômodo para o zelador, estariam sendo feitas obras de reforço estrutural:

- Não tinha idéia de que tal camarote, que foi uma conquista para a bateria, poderia se tornar motivo de tanta desconfiança e disse-me-disse.

O músico reforçou a importância da casa para o zelador, dizendo que, após sua saída da presidência da bateria da Mangueira, em dezembro passado, alguns objetos já teriam sumido de dentro do camarote. Ele negou que traficantes freqüentassem o camarote. Também disse o mesmo em relação a Tuchinha:

- O camarote tem uma entrada eletrônica. Como alguém que não tem essa carteira de acesso vai freqüentar? E, na minha época, ele (o Tuchinha) não freqüentava. Só quem tinha a carteira eram os meus diretores e os amigos da bateria.

Com diversos ataques à imprensa, o músico disse que vem sendo injustamente massacrado:

- Tenho a minha ficha limpa, o meu único vício é beber vinho ou fumar um charuto de vez em quando.

Responsável pelo principal patrocínio do desfile da Mangueira deste ano, que tem o tema "Cem anos de frevo, Recife mandou me chamar", a prefeitura de Recife preferiu ontem manter silêncio sobre o caso. O contrato de co-patrocínio para o desfile foi fechado no ano passado, numa solenidade no popular Clube das Pás, onde o prefeito João Paulo Lima e Silva (PT) se comprometeu a repassar R$3 milhões à escola. O acordo foi para o dinheiro ser pago em dez meses. "A prefeitura decidiu não se pronunciar sobre o problema, por entender que esse é um assunto específico, interno da Mangueira", informou a assessoria de imprensa.

Ontem também, na posse de Silvio Da-Rin como novo secretário do Audiovisual do governo federal, na sede da Funarte, jornalistas tentaram saber do ministro da Cultura, Gilberto Gil, se as verbas federais para a Mangueira serão mantidas. O ministro tentou se esquivar e respondeu que a Mangueira faz parte da história do Rio.

Anteontem, o prefeito Cesar Maia disse em seu ex-blog que a relação entre o tráfico e a Mangueira é antiga. "Por anos, os nossos ditos intelectuais e a imprensa saudavam a Mangueira como a única onde os bicheiros não tinham vez. Tiveram os traficantes, como se sabe há muito e se viu", escreveu Cesar, que ontem não quis comentar o assunto.

COLABOROU Letícia Lins (Recife)