Título: País economizaria R$20 bi com programa de eficiência energética
Autor: Ordoñez, Ramona
Fonte: O Globo, 21/01/2008, Economia, p. 14
O FANTASMA DO APAGÃO: Nível dos reservatórios do Sudeste continua crítico.
Cada R$1 bi investido evitaria construção de usinas como as do Madeira.
A necessidade de o país incrementar um programa de racionalização energética está sendo defendida por diferentes segmentos da sociedade e órgãos do setor elétrico. Cálculos de especialistas feitos para O GLOBO mostram que, se o governo investisse R$1 bilhão em programas de racionalização, tais recursos poderiam gerar uma economia de R$20 bilhões em investimentos em usinas hidrelétricas.
A economia de energia é apontada como fundamental neste momento, em que forte estiagem está esvaziando os reservatórios das hidrelétricas. Na última sexta-feira, o nível dos reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste atingiu 44,8% - 0,5% abaixo da margem de segurança. E a chuva do fim de semana não alterou essa situação, segundo informaram ontem técnicos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Cada R$1 bilhão aplicado em programas de eficiência energética resultaria numa economia de energia equivalente à gerada por uma usina de 7.400 megawatts (MW). Esse volume de energia poupado representa 1,2 vez a capacidade de geração do complexo das duas usinas do Rio Madeira (Santo Antônio e Jirau). Juntas, elas terão capacidade de 6.500 MW. O investimento previsto no complexo é de R$20 bilhões.
- Foi um erro desacelerar o programa de racionalização e conservação depois de 2001 - avalia o secretário-executivo do Instituto Socioambiental da Baía da Ilha Grande (Isabi), Ivan Neves.
O principal programa de conservação e uso eficiente de energia do país é o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), de 1985. Apesar dos resultados, o Procel recebe poucos recursos. Somente a partir de 2006 é que os investimentos passaram a ser da ordem de R$100 milhões anuais. Para este ano, a meta é R$120 milhões.
- Cada R$1 investido em programas de eficiência energética equivale a um investimento evitado de R$20 - calcula o chefe da Divisão de Planejamento e Conservação de Energia do Procel, Hamilton Pollis.
Orçamento do Procel é de apenas R$120 milhões
O especialista do Instituto Nacional de Eficiência Energética (Inee), Jaime Buarque, é mais cauteloso em suas contas a respeito da economia de investimentos na ampliação da oferta de energia gerada por programas de eficiência energética. Ainda assim, ele defende que a preocupação deve ser permanente.
- Qualquer indústria que optar por rever seus procedimentos terá condições de economizar entre 10% a 20% do consumo de energia.
Para mostrar como o país não é eficiente no consumo de energia, Buarque citou como exemplo o caso do gás natural. Segundo ele, o uso mais eficiente do gás é na co-geração. Já na indústria, o produto é aproveitado na geração de energia. Nesse caso, a eficiência chega a 70%, enquanto na geração de energia direta nas térmicas a eficiência é de 45% do total de gás usado.
Ainda segundo ele, se todas as usinas de álcool existentes utilizassem todo bagaço de cana-de-açúcar, diz, para geração de energia, poderiam ser gerados cerca de 10 mil MW de energia, equivalente a 15% a 20% da energia gerada no país.
Pollis, por sua vez, destaca os resultados positivos que o Procel vem acumulando ao longo dos anos. Segundo ele, dados preliminares indicam que os projetos desenvolvidos representaram um total de 2,9 milhões de megawatts-hora/ano (MWh/ano) em 2007, representando economia de investimentos de R$1,9 bilhão que teria que ser gasto na construção de uma usina de 695 megawatts (MW).
- Na realidade isso significa investimentos que são adiados para o futuro - afirmou Pollis.
Neste ano o Procel prevê investimentos da ordem de R$120 milhões, para resultar em uma economia de energia de 3 milhões de MWh/ano, energia suficiente para atender 1,8 milhão de consumidores residenciais.
BNDES: só R$90 milhões para projetos
Buarque defende um aumento dos recursos nos projetos de racionalização e, apesar de admitir que o país já tem uma legislação avançada, ele está convencido que é preciso atualizá-la. Ele se refere à Lei 10.295, de 2001, que estabelece normas variadas de eficiência energética que devem ser exigidas na fabricação e venda de equipamentos, como motores e lâmpadas.
Para acelerar os investimentos no setor, o BNDES lançou, no ano passado, o Pró-Esco, uma linha de financiamento para projetos de racionalização de energia.
Como essa linha de crédito é recente, sua carteira é de apenas R$90 milhões, incluindo projetos aprovados, em avaliação e consulta, segundo cálculos do chefe do Departamento de Meio Ambiente do banco, Eduardo Bandeira de Mello.
- Acreditamos que a partir deste ano haverá uma procura maior por esses recursos, pois o banco financia tanto as próprias indústrias e empresas como as próprias Escos (Empresas de Serviços de Conservação de Energia) - destacou Bandeira de Mello.
Pollis, do Procel, por sua vez, explicou que os recursos utilizados no programa vêm de várias origens. Uma pequena parte, cerca de R$20 milhões virão do orçamento da própria Eletrobrás. O restante dos recursos vem de parte da arrecadação da Reserva Global de Reversão (RGR), uma das parcelas pagas por todos os consumidores de energia em suas conta de luz. O Procel recebe recursos ainda das empresas que participam do programa. Até 2007, o Procel também recebeu recursos do Global Environment Facility (GEF), vinculado às Nações Unidas.
Segundo Pollis, o Procel desenvolve projetos não apenas em busca da mudança de cultura dos consumidores para usarem melhor a energia, mas, principalmente, no desenvolvimento de processos e equipamentos mais eficientes.
Desde que foi criado até 2006, o Procel obteve uma economia de energia equivalente a 24,5 milhões de megawatts/hora/ano. Isso significou uma economia de R$17,1 bilhões.
- Conservação de energia e eficiência energética devem ser permanentes e não alternativas adotadas em épocas de racionamento - afirmou Pollis.