Título: Pacote veio tarde
Autor:
Fonte: O Globo, 26/01/2008, Economia, p. 27

Para Ernest Stern, ex-diretor-gerente do Banco Mundial e do JP Morgan, o pacote veio tarde para conter a desaceleração dos EUA. Ele aposta em avanço de até 1,5% em 2008. Sócio do Rohatyn Group, especializado em emergentes, ele diz que os efeitos sobre o Brasil serão mais brandos.

Danielle Nogueira

Qual a sua avaliação do pacote anunciado por Bush?

ERNEST STERN: O pacote veio tarde. O efeito imediato foi mais psicológico. As medidas ainda terão que ser aprovadas pelo Congresso. Duvido que a restituição chegue aos americanos antes de julho. Logo, só teremos algum efeito no segundo semestre.

Então elas não serão capazes de evitar uma recessão?

STERN: A definição formal de recessão é de dois trimestres de crescimento negativo. O que importa é que estamos entrando num período de muito baixo crescimento. Se vai ser abaixo ou acima de zero, isso é curiosidade estatística. O pacote não altera as projeções econômicas. Acredito que o crescimento no último trimestre de 2007 deva ficar ao redor de 1%. Para o primeiro trimestre, eu duvido que haverá um crescimento negativo significativo, o que nos fará crescer entre 1% e 1,5% em 2008.

Que medidas deveriam ser tomadas?

STERN: A crise jogou luz sobre a questão das dívidas securitizadas. Um dos grandes problemas foi a inexistência de um mercado formal, no qual esses instrumentos pudessem ser negociados. Acredito ser necessário estabelecer um mercado para essas dívidas da mesma forma que há os mercados de títulos. É com regras claras que se constrói a transparência necessária para que os que participam das transações possam avaliar os riscos.

Alguns analistas acreditam que países emergentes, como a China, poderiam compensar a desaceleração americana. O senhor concorda?

STERN: Não acredito na tese do descasamento. Os laços (entre EUA e emergentes) estão mais fracos que no passado, mas estamos em uma economia globalizada. Se o principal motor da economia mundial desacelerar, os demais países vão sentir. O mundo não estará imune.

O Brasil vai sentir os efeitos da crise?

STERN: A situação do Brasil é bem diferente da dos anos 80 ou 90. Hoje o país tem reservas, mercado interno forte e disciplina fiscal. É bem menos dependente dos EUA. Os efeitos serão menores que em outros tempos.