Título: Se os EUA não crescerem, todos serão afetados
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 26/01/2008, Economia, p. 28

DAVOS. O mexicano José Ángel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) - o clube dos países ricos - não está apostando em recessão nos EUA. Mas, afirma, é certo que o país vai desacelerar. E todos, inclusive o Brasil, serão afetados.

A recessão americana vai ser severa?

JOSÉ ÁNGEL GURRÍA: Acho que não. Não temos informações o bastante até para dizer se haverá recessão. O que sabemos é que teremos crescimento baixo. Há o problema no mercado de crédito, de queda na confiança e de como o problema das hipotecas de alto risco está sendo enfrentado. Há também os US$100 por barril de petróleo. Nos próximos três meses, serão revistas as taxas de juros de 1,8 milhão de hipotecas. Muitas não vão ser pagas. Temos que esperar. Com liderança e ação, como a do Fed (que baixou os juros) e do Congresso americano e o governo, que aprovaram um pacote de US $150 bilhões, o mercado dará boas respostas.

A Europa não está crescendo muito e há pressão inflacionária. Mas o Banco Central Europeu (BCE) insiste no combate à inflação e não quer baixar juros. O que o senhor acha?

GURRÍA: Seja qual for a decisão que o BCE tomar, vai levar em conta o equilíbrio entre crescimento e inflação. O discurso até agora era aumentar os juros para conter a inflação. Mas agora acho que as preocupações vão ser mais equilibradas. As pessoas esquecem que o mandato do banco central é inflação, mas também empregos e equilíbrio na economia.

E os países emergentes? O Brasil está convencido de que não vai ser afetado.

GURRÍA: O descolamento (decoupling, no jargão de economistas, significa que um país não será necessariamente contagiado pela crise americana) é para quem está imaginando coisas. Se os EUA não crescerem ou tiverem índice de crescimento negativo, todos serão afetados. Eu venho do México, e 90% das exportações vão para os EUA e são de manufaturados. Seremos dramaticamente afetados.

Mas o México tem uma ligação muito maior com os EUA do que o Brasil.

GURRÍA: Sim, vocês são menos ligados. Mas a cadeia de transmissão do problema não é só no comércio. É também no fluxo de investimentos, no sistema financeiro e no nível de incerteza em geral. É por isso que vai afetar todo o mundo. (Deborah Berlinck, enviada especial)