Título: Fórum termina com alerta de recessão nos EUA
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 28/01/2008, Economia, p. 20
Líderes reunidos em Davos apostam em China e Índia para segurar a desaceleração do crescimento mundial
DAVOS, Suíça. Depois da euforia dos últimos anos, o Fórum Econômico Mundial de Davos terminou ontem com uma nuvem negra anunciando tempestade e provável recessão nos EUA. Líderes empresariais, acadêmicos e políticos alertaram para um ano duro para a economia mundial. Ninguém tem dúvidas de que as economias americana e global vão desacelerar. A questão que restou sem consenso é: quanto tempo vai durar e quão profunda será essa crise? Mais uma vez, os olhos se voltam para China e Índia. Espera-se que esses dois países -- por causa de um crescimento extraordinário de 11% e 9%, respectivamente -- possam, em parte, compensar a desaceleração dos EUA e impedir uma aterrissagem dura para a economia global.
Para a presidente da multinacional PepsiCo, Indira Nooyi, essa crise será o "grande teste" para os emergentes asiáticos.
- Veremos se o motor do crescimento mundial é somente os EUA ou o equilíbrio de poder realmente se movimentou e se distribuiu pelo mundo -- disse Indira.
Executivo chinês diz que consumo interno é trunfo
A presidente da PepsiCo faz parte do grupo dos menos pessimistas. Para ela, pode haver um freio no crescimento global. Mas prefere esperar para ver.
A China, mais uma vez, saiu poderosa do Fórum. O presidente da China Mobile Communications Corporation, Wang Jianzhou, lembrou como o discurso e os tempos mudaram. Segundo ele, quando esteve em Davos há três anos, as pessoas só lhe perguntaram como é que o crescimento de China e Índia iria afetar outros países.
- Isso era visto como uma ameaça. Mas este ano me fizeram a pergunta: qual será o efeito se o crescimento de Índia e China diminuir, devido à recessão mundial?
Para Wang, se houver, uma recessão mundial afetará a China, mas não muito. Ele deu um exemplo da força do país: a China Mobile tem 370 milhões de assinantes, e a cada mês ganha seis milhões de novos clientes. A receita do crescimento chinês, diz Wang, é consumo interno, exportações e investimentos de capital.
Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, também participou do encerramento do Fórum, afirmando que a globalização está forçando uma mudança na forma como as pessoas colaboram umas com as outras.
Klaus Schwab, presidente do Fórum, reconheceu que empresários e políticos têm "um tremendo desafio pela frente". Foi praticamente o único com discurso exageradamente otimista, que não refletia o ambiente pesado nos corredores:
- O clima foi moderadamente otimista porque temos muitas oportunidades pela frente.
Para economista, Brasil está no grupo dos menos afetados
Mas acredita-se que a crise tenha pelo menos um efeito benéfico: a conclusão da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC).
- Temos uma janela de necessidade que também é uma janela de oportunidade - disse o chanceler brasileiro, Celso Amorim.
O Fórum deste ano foi aberto pela secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, dizendo que a economia dos EUA "continuará sendo o motor que guia o crescimento econômico mundial". O mais pessimista foi o economista Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, o único que, no ano passado, previra o estouro da crise das hipotecas de alto risco. Ele insistiu que a recessão americana será forte, com a China desacelerando de 11% para 6% ou 7%, o que terá conseqüências para países como o Brasil.
Até o Fundo Monetário Internacional (FMI) deixou seu discurso habitual. O diretor-gerente do Fundo, Dominique Strauss-Kahn, pregou a necessidade de alguns países - sem dizer quais - afrouxarem sua política fiscal e gastarem mais para mitigar os efeitos da crise.
O Brasil saiu-se bem quando jornalistas brasileiros perguntavam a economistas qual seria o efeito de uma recessão americana sobre o país. Para Roubini, não há como o Brasil escapar, mas o país está entre os que serão menos afetados.