Título: Duelo republicano na Flórida
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 28/01/2008, O Mundo, p. 21

Empatados nas pesquisas, McCain e Romney se engalfinham em disputa pessoal.

Amenos que aconteça algo extremamente fora do comum entre hoje e amanhã, a prévia eleitoral do Partido Republicano nesta terça-feira na Flórida será basicamente um duelo ¿ e dos mais obstinados ¿ entre o senador John McCain e o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney. Empatados ontem cada um com 30% da preferência do eleitorado, ambos passaram o dia não só reforçando os seus próprios argumentos e posições durante entrevistas e comícios em várias cidades, mas, sobretudo, acusando-se mutuamente.

McCain, que o próprio Partido Republicano crê ser o candidato que mais tem condições de enfrentar os democratas Hillary Clinton ou Barack Obama, tem uma desvantagem na Flórida. Neste estado os independentes, que o ajudaram a vencer tanto em New Hampshire como na Carolina do Sul, não podem votar na prévia eleitoral: isso só é permitido a quem está registrado no partido.

Ele tem de contar, portanto, com os moderados ¿ minoria entre os republicanos (cerca de 20%) ¿ com a população acima dos 65 anos (17%) e com os militares da reserva e da ativa, que são 40% dos eleitores, mas estariam divididos entre apoiar McCain e Romney. Este, por sua vez, conta com os republicanos que se dizem conservadores e ultra-conservadores.

Eleitor hispânico é alvo dos candidatos

Por isso, ambos passaram a cuidar mais do eleitorado hispânico, em especial o cubano. Ao ver que McCain obtivera no sábado o endosso de um senador e dois deputados cubano-americanos ¿ além do aval do popular governador Charlie Crist ¿ Romney fez campanha ontem vestindo uma guayabera, uma longa camisa de algodão tradicional em Cuba, que tinha à altura do coração a inscrição ¿Baía dos Porcos¿, referência à frustrada tentativa de invasão de Cuba feita por exilados cubanos, com o apoio da CIA, nos anos 60.

¿ Tenho a honra de vestir essa guayabera que me foi presenteada por um veterano daquela batalha ¿ repetia Romney em seus discursos.

Nessa fase de aquecimento para o confronto decisivo, um aspecto tornou-se claro: a crise econômica dos Estados Unidos, à beira de uma recessão, passou a ser o assunto prioritário de ambos. Cada um tratou de tirar proveito disso.

Romney viu nesse tema uma forma de realçar a sua presença na disputa, por causa de seu perfil como homem de negócios especializado no setor financeiro. Ele passou a se apresentar como o único pré-candidato com conhecimento de causa.

¿ O senador McCain já demonstrou várias vezes a sua falta de conhecimento sobre economia. E desse assunto eu entendo muito ¿ insistiu ele num comício ontem à tarde em Sweetwater, cidade vizinha de Miami, assim como fizera pela manhã em West Palm Beach e em Boca Ratón.

Duas coisas chamavam a atenção no salão principal do Jorge Mas Canosa Center, durante o seu discurso. Um era o fato de metade do ambiente estar vazio. O outro era que Romney alterou, da noite para o dia, os seus cartazes de propaganda, criando um novo slogan. ¿Virada econômica¿, diziam eles, servindo como pano de fundo às suas promessas de recolocar o país nos trilhos.

Giuliani cai ainda mais em pesquisas

McCain, por sua vez, rebatia na mesma moeda em seus ¿encontros comunitários¿ ¿ nos quais, ao contrário dos demais candidatos, além de fazer discursos ele responde a perguntas dos eleitores. Ele usou de ironia na tentativa de neutralizar a acusação de Romney de que é mal versado em economia, tratando de estabelecer uma diferenciação.

¿ O governador Romney está apenas enaltecendo as suas qualidades e seu currículo como um gerente. Eu estou falando ao povo americano como um líder. Gerente a gente contrata a qualquer hora, para cuidar da mecânica, para implementar políticas, para lidar com bens. E liderança é o que se encontra em pessoas que tiveram experiência e demonstraram patriotismo servindo ao nosso país ¿ comparou McCain.

Os demais candidatos mal apareciam no radar dos meios de comunicação, devido ao patente desinteresse do próprio eleitorado a respeito deles. O ex-pastor evangélico e ex-governador de Arkansas Mike Huckabee, com apenas 14% das intenções de voto e pouco dinheiro em caixa, mal tinha o suficiente para viajar pelo estado.

Apesar de vir se dedicando à campanha exclusivamente na Flórida há dois meses, o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani manteve ontem a tendência dos últimos dias: caiu mais alguns pontos, aparecendo em penúltimo lugar, com 13%, acima apenas de Ron Paul, com 3%.