Título: Sem arrependimento
Autor: Lima, Maria
Fonte: O Globo, 02/02/2008, O País, p. 3
GASTOS SEM CONTROLE
Matilde Ribeiro deixa ministério culpando assessores, e admite só "erro administrativo"
Pressionada pelo governo, mas sem demonstrar arrependimento pelos abusos cometidos com o uso do cartão corporativo, Matilde Ribeiro entregou ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva sua carta de demissão do cargo de ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Depois de admitir ter cometido um "erro administrativo" no encontro com Lula, em entrevista coletiva ela leu uma carta em que debita a dois ordenadores de despesa da Secretaria parte do erro pelo mau uso do dinheiro público. Os dois, Carlos Eduardo Trindade e Antonio Silva Pinto, que em momentos diferentes chefiaram a subsecretaria de Planejamento, haviam sido demitidos na véspera por Matilde.
Primeira colocada, com folga, no ranking de gastos com o cartão, usado até para pagar compras no free shop e contas em bares e resorts em dias de folga, Matilde foi evasiva ao responder se estava sendo vítima de preconceito racial por parte da imprensa.
- Assumo o erro administrativo. Os fatos que me levaram a escolher o uso dos cartões corporativos foram as dificuldades com hospedagem e deslocamento. Reitero que se trata apenas de um erro administrativo.
O petista Martvs das Chagas, secretário-adjunto, deve assumir sua vaga interinamente. Perguntada se estava arrependida, Matilde disse:
- Não estou arrependida. Até então estava orientada a usar o cartão para essa agenda de trabalho que eu tenho. Se eu tivesse sido alertada do erro administrativo, tinha corrigido antes. Mas só fui alertada no momento atual.
Ela disse que em caso de processo criminal e de uma pena que resulte na devolução de parte dos R$171 mil gastos em 2007 indevidamente, isso deve acontecer coletivamente: dividido entre ela e os assessores demitidos, cujos nomes só foram divulgados mais tarde por sua assessoria.
- Esse erro não foi cometido exclusivamente por mim. O erro é coletivo e o tratamento será coletivo.
Ministra: pasta tem parcos recursos
Matilde disse que teve uma "conversa madura" com o presidente. Fez, segundo ela, recomendações de políticas de afirmação racial que devem ser tomadas. Na carta que entregou a Lula, ela reclama dos parcos recursos destinados à pasta, e ressalta a importância da continuidade do trabalho, pois ainda há "uma dívida histórica com o movimento negro": "Agradeço a confiança em mim depositada. Foram cinco anos de trabalho em que me dediquei sem me preocupar com ganhos pessoais". O alto gasto com o cartão, afirmou, foi conseqüência da falta de estrutura e da necessidade de "contatos miúdos" com pessoas e organizações ligados ao movimento negro.
Ela ficou confusa, contudo, quando questionada sobre o uso do cartão para pagar R$2.600 pela locação de um veículo Astra de luxo, de 31 de outubro a cinco de novembro de 2007, sendo que entre os dias 1 a 4, feriadão de Finados, ela não tinha agenda em São Paulo. Pela agenda, ela teve um compromisso no interior do estado no dia 31, sendo que o próximo compromisso oficial só aconteceu no dia 5. A locadora informou que nesse período o carro foi usado ininterruptamente.
- Cheguei do compromisso no interior de São Paulo na tarde do dia 1º de novembro. No dia 5, tinha a preparação para um ciclo de debates. Nos dias 2, 3 e 4, permaneci em São Paulo em atividades de trabalho não públicas. Eu encontrei com pessoas, escrevi, me locomovi.
Sobre o pagamento de uma conta pessoal no free shop, em 10 de outubro de 2007, ela disse que já devolveu os R$460 reais em janeiro, mas não divulgou a data nem a forma do ressarcimento.
- Foi um engano. Eu fui notificada em dezembro deste engano e a devolução foi feita em janeiro, após as férias e o recesso.
Embora a todo momento tivesse repetido que ainda há discriminação e preconceito contra os negros no Brasil, Matilde não quis afirmar que, se fosse um branco em seu lugar, a situação poderia ter tratamento diferente.
- Diante de um erro administrativo, qualquer pessoa que o cometa tem que responder por ele. O erro foi um erro e aconteceu comigo.
Segundo a ex-ministra, ela entregou o cargo de maneira voluntária:
- Estou sendo avaliada a partir de instrumentos internos pelos órgãos competentes. O resultado dessa avaliação e os encaminhamentos dela eu ainda não tenho. Eu estou me colocando à disposição do governo.