Título: Um índice, um susto
Autor: Flores, Mariana
Fonte: Correio Braziliense, 25/04/2009, Economia, p. 22

Desemprego sobe para 9%, apresenta o pior desempenho em 18 meses e volta a atingir mais de 2 milhões de brasileiros em seis grandes regiões metropolitanas. Aumento entre fevereiro e março comprova crise. Cristiane foi demitida e procura emprego no Distrito Federal. Três meses após atingir o patamar mais baixo da história, o desemprego sobe e começa a assustar. A taxa de desocupação subiu 0,5 pontos percentuais em março e registrou o pior desempenho dos últimos 18 meses. O índice saltou de 8,5% da População Economicamente Ativa (PEA) em fevereiro para 9% no mês seguinte. Em março do ano passado, 8,6% da PEA estavam em busca de uma vaga, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Somente em março, o contingente de desempregados teve um incremento de 141 mil pessoas, ultrapassando a barreira dos 2 milhões nas seis regiões metropolitanas pesquisadas ¿ Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. O resultado é preocupante por ser a maior elevação de fevereiro para março dos últimos cinco anos, segundo análise feita por técnicos do IBGE.

Mesmo com a crise econômica, a alta não era esperada com tanta intensidade, de acordo com o coordenador da pesquisa, Cimar Azeredo, e o aumento neste período abre uma lacuna para que o país volte a registrar taxas de dois dígitos, o que não ocorre desde junho de 2007. ¿Essa taxa é preocupante. Agora, temos elementos que comprovam os efeitos da crise, pois, em março, tradicionalmente a taxa não subia e neste mês avançou¿, afirma. A fuga da série histórica faz com que as previsões sejam ainda mais difíceis de serem realizadas, de acordo com Azeredo. ¿A série histórica não está mais sendo seguida, não sabemos o que vem nos próximos meses.¿

O economista Roberto Montezano, professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais do Rio de Janeiro (Ibmec-RJ), no entanto, acredita que seja grande a possibilidade de atingir dois dígitos ainda neste ano. ¿Ter um desemprego de dois dígitos é um cenário ruim, mas não dá para se jogar fora essa possibilidade. Houve um choque de demanda muito grande nos últimos meses, investimentos foram reduzidos, e, mesmo que as empresas voltem a investir, a última parte da reação é a contratação¿, afirma. A recuperação sentida nas últimas semanas no comércio e na indústria se deu exclusivamente nos setores que estão sendo beneficiados pelo governo federal com a redução de impostos, como o automotivo e o de materiais de construção, destaca. O que não representa necessariamente uma reação da economia. ¿A retomada não está sendo sentida nos outros segmentos, como bens duráveis, por exemplo. Assim, é provável que voltemos a ter um desemprego de dois dígitos neste ano¿, completa.

Os setores que não contaram com os incentivos fiscais continuam reduzindo seus quadros de pessoal. Na semana passada, a vendedora Cristiane Maria do Socorro Miranda, de 41 anos, foi demitida da loja de utilidades domésticas em que trabalhava. Dos 11 funcionários da loja, restaram apenas cinco. A medida, segundo foram informados, se deu por contenção de gastos. ¿Eu já tinha notado que a situação não era boa. As vendas estavam diminuindo, primeiro caíram as comissões, e, depois, acabaram nos demitindo¿, conta Cristiane. Com 15 anos de experiência, ela não se assusta com a possibilidade de passar uma fase desempregada. ¿Tenho experiência e muita vontade de trabalhar. Acho que vou conseguir emprego.¿ Mas, para evitar ser demitida novamente, sonha em passar em um concurso público.