Título: Movimentos de sem-terra invadem 14 fazendas em menos de 48 horas
Autor: Farah, Tatiana
Fonte: O Globo, 05/02/2008, O País, p. 4
Em mais uma onda de ocupações, MST protesta contra projeto do governo de SP
SÃO PAULO. Em menos de dois dias, sem-terra invadiram 14 fazendas da região do Pontal do Paranapanema, no interior de São Paulo. A operação, que começou no sábado, foi liderada pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e reuniu os movimentos sociais da região, como Uniterra, Terra Brasil, Mast (Movimento dos Agricultores Sem-Terra) e entidades ligadas à CUT (Central Única dos Trabalhadores). A maior fazenda invadida foi a Estrela do Laranja Doce, de 4 mil hectares (4 milhões de metros quadrados), em Martinópolis. Só ontem foram dez invasões.
- As ocupações ocorreram de forma pacífica, tanto de um lado como de outro. Das 14 fazendas, 12 são terras devolutas e duas são do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Nós, sem-terra, e os fazendeiros sabemos que este problema é responsabilidade do governo. Ele é que tem de resolver - afirmou o coordenador do MST Sérgio Pantaleão.
Segundo a polícia de Martinópolis, as duas invasões que ocorreram na cidade foram pacíficas. A outra propriedade, Fazenda Boa Esperança, foi uma das primeiras a ser invadidas. Os boletins de ocorrência foram encaminhados à delegacia Seccional de Presidente Prudente, que centralizou as 14 ocorrências. O GLOBO tentou localizar o presidente da UDR (União Democrática Ruralista), entidade centralizada no Pontal, Luiz Antonio Nabhan Garcia, mas a organização estava fechada.
Chamada de "Carnaval 2", a operação comandada pelo MST é um protesto contra o projeto de lei encaminhado pelo governador José Serra (PSDB) à Assembléia Legislativa no ano passado. O projeto revê o que será feito com as terras devolutas até 500 hectares no Pontal do Paranapanema. Os sem-terra querem que as terras sejam mantidas para a reforma agrária, mas o projeto as dispõe aos ruralistas.
- Essas terras beneficiariam 15 mil famílias e deveriam ser destinadas a elas. o Pontal é a segunda região mais pobre do estado e é preciso mostrar que ele existe - disse Pantaleão.
Acusado de estar por trás das invasões, o líder do MST José Rainha Junior negou participação na operação Carnaval 2.
- Desta vez, não estou na liderança das ocupações, mas elas são uma necessidade. O projeto de lei é uma vergonha - disse Rainha.
O MST avalia que mais famílias chegarão nos próximos dias às fazendas invadidas. Até as 20h de ontem, não havia contagem do número de participantes da invasão, mas a estimativa é que cheguem a mil famílias. De acordo com os militantes, as propriedades somam cerca de 20 mil hectares. O GLOBO procurou o Itesp (Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo) e a Secretaria de Justiça do Estado, mas ambos estavam em recesso.