Título: Volks sabia, mas não avisou
Autor: Sodré, Eduardo
Fonte: O Globo, 09/02/2008, Economia, p. 21
Montadora mudou peça do Fox que causou mutilação e não fez "recall" de carros antigos.
Muito antes de virem à tona os problemas que causaram até mutilações em consumidores, a Volkswagen do Brasil já sabia dos riscos nos modelos Fox. A montadora modificou o projeto, mas não fez recall nem avisou aos consumidores donos de modelos antigos, que continuaram a usar os carros sujeitos a acidentes. Uma peça que permite baixar o banco traseiro e aumentar o porta-malas nos carros da família Fox (hatch, CrossFox e SpaceFox) chegou a causar o decepamento de dedo de consumidor. A polêmica argola que causou diversos acidentes Brasil afora foi substituída por outra, de menor dimensão e que não permite que o dedo seja colocado nela, nos modelos a partir de 2006.
Só no fim da tarde de ontem, após a repercussão de reportagens que relatam acidentes, o fabricante divulgou nota em que convida proprietários desses carros a irem às concessionárias para substituir a peça - sem chamar de recall. A que será colocada em veículos mais antigos é a que já equipa os automóveis novos da linha.
O Fox se tornou um sucesso de vendas devido ao bom aproveitamento do espaço interno. Em 2007, o carro foi o quarto automóvel mais vendido do Brasil.
Carro vendido para Europa é mais seguro
Os primeiros casos chegaram ao conhecimento da Volkswagen logo após o lançamento do Fox, em 2004, quando consumidores retornaram às concessionárias se queixando de dificuldades para dobrar os bancos traseiros. O sistema brasileiro combina tiras de náilon presas a hastes metálicas, bem diferente do usado na Europa, para onde o carro é exportado. Lá, há apenas uma haste de ferro que destrava todo o conjunto, mais fácil de manusear e com menor risco. A Volks, que se pronunciou por meio de uma nota, disse que "o banco do Fox europeu é bipartido e exigiu uma solução técnica diferente".
O problema teve repercussão a partir de reportagem da revista "Época", que conta a história do químico Gustavo Funada, que há quatro anos teve parte do dedo médio da mão direita decepada ao rebater o banco para guardar compras.
Para puxar a trava que libera o encosto traseiro e permite que este seja reclinado para frente, Funada enfiou o dedo na argola na base do conjunto, com acesso pelo porta-malas. O acidente aconteceu quando ele empurrou o banco, pois a argola imprensou seu dedo contra a estrutura metálica do assento. O químico disse que catalogou outros 22 casos semelhantes, e em sete ocorrências teria havido mutilação. O procedimento correto consiste em puxar a trava por meio de uma tira de náilon presa à haste. Entretanto, a possibilidade de acionar o mecanismo a partir da argola induziu os proprietários ao erro.
Em nota, a Volks informou que "a operação desse sistema é segura, bastando seguir corretamente as instruções do Manual do Proprietário". A empresa descartou ainda a necessidade de um recall, mas ofereceu aos clientes a possibilidade de instalar gratuitamente "uma peça adicional que evita eventuais erros na operação de rebatimento do banco traseiro". Na oficina, os mecânicos substituirão a haste do encosto por outra, dotada de uma argola de menor dimensão, igual à utilizada hoje.
Porém, essa medida não resolve outro problema: a dificuldade em baixar por completo o banco traseiro para aumentar mais o espaço no porta-malas. Neste caso, surge risco de outro tipo de acidente, também do conhecimento da Volks. O procedimento consiste em dobrar o encosto e erguer todo o conjunto por uma alça.
Ao executar essa operação, o motorista entra no porta-malas, seguindo as instruções disponíveis em uma etiqueta no banco traseiro. A posição é incômoda, e o usuário pode perder o equilíbrio e apoiar uma das mãos na base do assento. Se não suportar o peso do banco e soltá-lo, o usuário poderá ter seus dedos imprensados entre as peças metálicas.