Título: Militares querem mais adidos no exterior
Autor: Franco, Bernardo Mello
Fonte: O Globo, 10/02/2008, O País, p. 13

Defesa levará pedido a Lula e argumenta que quadro atual não contempla necessidades da política externa.

BRASÍLIA. Em plena campanha por reajustes salariais e reaparelhamento das três Forças, que inclui a construção do polêmico submarino nuclear sonhado pela Marinha, os militares preparam um novo pedido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a expansão da rede de 63 adidos no exterior. "A distribuição atual não contempla os anseios da política externa brasileira", diz nota do Ministério da Defesa, que promete levar a reivindicação da caserna ao Planalto.

Reservados a oficiais de alta patente, como coronéis do Exército e da Aeronáutica e capitães de mar-e-guerra da Marinha, os postos estão distribuídos por 32 países e são considerados um prêmio para militares em fim de carreira. A designação, por dois anos, também influi na escolha dos oficiais que serão promovidos a general, brigadeiro e contra-almirante. A remuneração no exterior gira em torno de US$10 mil (cerca de R$18 mil), valor muito acima dos salários pagos no país. Cada adido tem direito a um assessor militar, uma secretária e um carro oficial com motorista. Há ainda nove adidos-adjuntos, também oficiais superiores.

- Em países com custo de vida mais baixo, dá para fazer um pé-de-meia, o que é muito difícil para um militar no Brasil - conta o ocupante de um dos postos na América Latina.

Os adidos trabalham como assessores das embaixadas e são formalmente impedidos de promover atividades de investigação no exterior, que dependem de autorização do Congresso. No entanto, enviam regularmente ao comando das três Forças, em Brasília, relatórios sobre a conjuntura política e econômica e o poderio militar dos países em que trabalham.

A preocupação em desvincular o serviço dos diplomatas-militares das ações de espionagem tem razão histórica: durante a ditadura militar, os adidos brasileiros participaram intensamente do intercâmbio entre os órgãos de repressão. A tarefa foi reforçada na Operação Condor, em que países latino-americanos trocavam informações e prisioneiros acusados de integrar organizações de esquerda.

- Nos anos da Guerra Fria, os adidos militares estavam inteiramente vinculados aos serviços de espionagem e muitas vezes participavam de operações ilegais em outros países - conta o coordenador do Grupo de Estudos sobre a Ditadura Militar da UFRJ, Carlos Fico.

Entre os motivos para a expansão dos cargos, a Defesa cita a política de aproximação com a África, a campanha por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU e "a projeção que Brasil assume no concerto das nações".

- Todo país que tem pretensões internacionais precisa de uma boa rede de adidos militares no exterior - diz Fico.

Os postos ocupados pelos adidos obedecem a decreto assinado pelo presidente Lula em dezembro de 2004. Entre os 13 países que contam com um representante de cada Força, estão Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, China, África do Sul e outras sete nações sul-americanas. O único posto vago dos 64 autorizados pelo decreto é o do Iraque, onde a representação foi suspensa com a invasão americana, em 2003.

Além dos militares, as embaixadas contam com oito adidos civis, que representam a Polícia Federal, a Receita Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em quatro países: Argentina, Colômbia, Paraguai e Venezuela. O cargo de adido cultural, que já garantiu o envio de intelectuais a Roma, Londres e Paris, foi abolido: a função agora é desempenhada por diplomatas de carreira.