Título: Planalto negociou com a cúpula do PSDB
Autor: Vasconcelos, Adriana; Lima, Maria
Fonte: O Globo, 12/02/2008, O País, p. 3
Acordo garantiria sigilo sobre os gastos relacionados a familiares de Lula e de FH.
BRASÍLIA. O Palácio do Planalto intensificou, no fim de semana, articulação nos bastidores com integrantes da cúpula do PSDB para tentar limitar a ação da CPI do Cartão Corporativo. Pelo acordo negociado, seriam mantidos em sigilo os gastos relativos à segurança pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e despesas de sua família. O mesmo seria feito em relação aos gastos considerados secretos na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, que eram feitos por meio da chamada conta tipo B - quando ainda não havia o cartão corporativo. A proposta do governo, que vem sendo repudiada por alguns tucanos e democratas no Congresso, inclui também tentar evitar a politização dos gastos feitos em cartão corporativo - de débito, e não de crédito, como no governo federal - na administração do governador José Serra (PSDB) em São Paulo.
Em troca, acreditam os governistas, a oposição teria cuidado na divulgação de dados que tenham relação direta com o presidente Lula e seus familiares. Nos últimos dias, alguns tucanos foram procurados por emissários do Planalto. Ontem, o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, chegou a conversar com o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).
- Nem o presidente Fernando Henrique nem o presidente Lula e nem o governador José Serra determinaram a ninguém que agisse de forma errada com os suprimentos de fundos ou cartões de pagamento. Não tenho dúvida sobre a conduta dos três, que são meus amigos. Se alguém fez coisa errada, que responda! - disse o líder do governo Lula, senador Romero Jucá (PMDB-RR), que também foi líder no governo Fernando Henrique.
Na cúpula do PSDB, a ordem ontem era de cautela. Depois de várias conversas telefônicas, os dirigentes adotaram discurso mais cuidadoso que o da semana passada.
- Os termos da CPI terão que ser negociados pelos líderes. É preciso definir até onde vai a CPI. Mas é preciso ter critério e responsabilidade. Não dá para fazer pirotecnia nesse negócio - ponderou o presidente tucano, senador Sérgio Guerra.
Semana passada, emissários do Planalto já haviam mandado recados, em tom de intimidação, de que o governo estava disposto a fazer uma devassa nas despesas da gestão tucana. A avaliação reservada feita pela cúpula do PSDB era de que o PT tentaria atingir Serra, o principal nome tucano para a sucessão de 2010. Nos bastidores, o próprio Serra deixou claro para integrantes do seu partido que não estava satisfeito com o nível de politização do debate.
Tucanos e governistas fazem discurso semelhante
De forma reservada, integrantes do núcleo do governo já avaliam que será possível um acordo de procedimento com o PSDB para limitar a investigação da CPI. Ontem, integrantes da cúpula tucana e do governo faziam discurso semelhante, cobrando responsabilidade nos trabalhos da CPI. A expectativa do Planalto é de que nos próximos dias possa haver um entendimento entre os líderes no Congresso para estabelecer o objeto de investigação da comissão de inquérito.
- Se depender de mim, haverá uma CPI de alto nível, com responsabilidade. Até porque fizemos o que a oposição queria, que é uma CPI mista, e o governo não tem o que temer - disse Jucá.