Título: Brasil exportou carne não-rastreada para Europa
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 14/02/2008, Economia, p. 29

Ministro critica exportadores e certificadoras por falha no controle. Brasil perde US$5 milhões por dia com embargo

BRASÍLIA. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, admitiu ontem que o Brasil chegou a exportar carne bovina não-rastreada para a Europa, em decorrência das falhas no processo de acompanhamento de bovinos e na certificação de produtos exportados para o bloco. Stephanes não poupou críticas a exportadores brasileiros e, principalmente, às certificadoras, cuja situação, afirmou, é "um escândalo", atribuindo implicitamente aos empresários parcela de culpa no embargo europeu. Ele acrescentou que o Brasil está perdendo cerca de US$5 milhões por dia com o embargo.

As declarações, consideradas imprudentes e graves por parlamentares, foram feitas durante audiência pública na Comissão de Agricultura do Senado, em que o tema era a suspensão das vendas de carne bovina in natura para a União Européia (UE).

- Hoje, tenho certeza disso. Eles (os frigoríficos) exportaram para a União Européia carne rastreada e não-rastreada - afirmou Stephanes.

Embora a rastreabilidade dos bovinos - acompanhados desde o momento em que nascem até a hora do abate - seja exigida desde 2002, as falhas no processo de classificação dos produtos para exportação são evidentes. O ministro destacou que as certificadoras nunca foram auditadas. Revelou ainda que uma inspeção feita recentemente por seu ministério resultou na eliminação de 20 empresas de uma lista de 71 reconhecidas pelo órgão.

Brasil apresentará lista com 600 propriedades aptas

Stephanes conclamou os frigoríficos exportadores a liderarem o processo de rastreabilidade dos rebanhos.

- Se os frigoríficos não liderarem o processo de rastreabilidade, ela não acontece. É preciso fidelizar clientes, ou seja, fornecedores, e pagar um adicional - afirmou.

Após a audiência, alguns parlamentares comentaram que a informação dada por Stephanes sobre exportações que podem ter ocorrido sem rastreabilidade foram um "tiro no pé". A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), por exemplo, considerou a declaração "gravíssima".

Mais uma vez, o ministro disse que o Brasil errou ao aceitar as normas exigidas pela UE para a venda de carne. Em sua opinião, o alto nível de exigência dos europeus se justifica pelo fato de as regras terem sido feitas quando houve o mal da vaca louca, doença que levou ao sacrifício de milhões de animais na Europa, mas nunca foi detectada no Brasil.

- O Brasil, porém, aceitou a imposição e disse que iria segui-la - lembrou Stephanes.

Como não há mais como remediar, uma missão liderada pelo secretário de Defesa Agropecuária, Inácio Kroetz, já está em Bruxelas, sede da UE, para uma série de reuniões que começam hoje e terminam amanhã. Os técnicos do Ministério da Agricultura têm em mãos uma lista com 600 propriedades consideradas pelo governo brasileiro aptas a venderem carne para a UE. Stephanes assegurou que todas as fazendas na relação foram auditadas pelos fiscais de seu ministério.

O ministro reforçou a posição do governo brasileiro de que o embargo é "um exagero" e que os europeus estão sendo movidos por interesses comerciais, não sanitários.

País tentará mudar regras de rastreabilidade

Stephanes recusou o pedido de parlamentares para que não apresentasse a lista de fazendas aptas a exportar. Mas concordou com a proposta de fazer chegar à Comissão Européia as pressões que os produtores começam a fazer sobre o governo para que seja adotada uma posição mais dura em relação ao embargo.

De acordo com Stephanes, para atender à demanda do mercado europeu pela carne bovina seria necessário cadastrar entre 3 mil e 5 mil propriedades brasileiras. A UE afirma que o Brasil só tem condições de habilitar, a curto prazo, 300 fazendas.

Ele indicou que, em um segundo momento da negociação, o Brasil tentará revisar as normas de rastreabilidade.