Título: Governo volta a ficar refém da base aliada
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 18/02/2008, O País, p. 4

GASTOS SEM CONTROLE: CPI do Cartão Corporativo obriga governo a refazer estratégia política prevista para 2008.

Investigação frustra expectativa de um ano livre da agenda parlamentar e com o foco voltado para as eleições.

BRASÍLIA. Com a instalação da CPI do Cartão Corporativo no Congresso Nacional, o governo foi obrigado a refazer a estratégia política prevista para este ano. A expectativa no núcleo do Planalto era de dias mais calmos em 2008, com o governo menos dependente da agenda parlamentar e com o foco político voltado para as eleições municipais. Especialmente para as disputas ferrenhas no campo adversário, como a divisão do PSDB em São Paulo.

A CPI fará com que o governo fique de novo refém da sua base aliada e, conseqüentemente, mais fraco no equilíbrio de forças da aliança para projetos futuros, como o da sucessão em 2010. Isso exigirá novos esforços do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe de articuladores políticos. Esforços que, na cena política de Brasília, se traduzem em afagos, cargos e liberação de emendas ao Orçamento.

- Estávamos trabalhando para que este fosse um ano mais tranqüilo, com menor dependência da pauta legislativa. Mas, com uma CPI no Congresso, é claro que o governo precisa ter uma base unida. Isso demanda trabalho redobrado - diz o ministro José Múcio Monteiro, de Relações Institucionais.

Com a CPI, PMDB e aliados como PR e PP se fortalecem

Com a criação da CPI, o PMDB e outros partidos aliados como PR e PP ficaram novamente fortalecidos. Até então, o governo avaliava que não seria mais útil investir tanto esforço na construção da base, principalmente com o loteamento de cargos, já que não haveria necessidade de um retorno significativo do Congresso.

Antes da CPI, a principal orientação de Lula aos ministros e articuladores políticos era que o governo deveria evitar uma pauta congressual, só enviando ao Legislativo matérias essenciais. A orientação refletia o trauma da derrota do fim do ano passado, quando o Senado rejeitou a emenda que prorrogava a CPMF.

Mas, na avaliação de um assessor do governo, a CPI inverteu a lógica: o Executivo passa a necessitar da base congressual não para aprovar projetos, mas para tentar manter um clima de governabilidade e de controle da situação.

- Um governo nunca deve achar que não precisa do Congresso. Até porque, no meio da calmaria, sempre podem aparecer ondas. Por isso, o Planalto deve ter sempre uma boa relação parlamentar - afirma o presidente do PP, senador Francisco Dornelles (RJ).

Com a reviravolta na agenda do Congresso, os aliados tentam ganhar mais espaço dentro do governo, o que tem incomodado Lula. Isso ficou claro, nos últimos dias, na disputa pelo loteamento de cargos no setor elétrico. O próprio PMDB recuperou musculatura na negociação e, com isso, deve ganhar a maioria das diretorias das estatais da área, apesar dos vetos da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, às indicações políticas.

- Mais do que nunca, o PMDB passa a ser essencial ao governo. Agora, é preciso reconhecer isso - alerta o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN).

No fim do ano, Lula já havia feito a avaliação reservada de que o governo não deveria ficar tão dependente do Congresso, para que diminuísse, de forma significativa, o poder de barganha e chantagem dos aliados. A preocupação de Lula era a repetição do desgaste da negociação da CPMF, quando o governo ficou fragilizado.

- Está claro que, com uma CPI , o governo vai precisar mais dos aliados, e isso muda a lógica anterior. Na atual situação, o governo fica mais vulnerável, já que a correlação de forças no Congresso acaba mudando - reconhece o líder do PT, deputado Maurício Rands (PE).

Com isso, a tendência cada vez maior é de esvaziamento do poder do PT neste ano, o que pode afetar as alianças para as eleições municipais, nos últimos três anos de governo Lula e, dependendo do tamanho da crise do cartão corporativo, respingar em 2010. A percepção é de que agora o Planalto terá que fazer, obrigatoriamente, mais interferências nos acordos locais para fortalecer aliados, em detrimento de algumas candidaturas do PT.