Título: Governo brasileiro investiga existência de fortuna de Cacciola no exterior
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 21/02/2008, Economia, p. 24
Objetivo é bloquear e repatriar recursos do ex-dono do Banco Marka
MONTECARLO. O governo brasileiro quer encontrar, bloquear e repatriar o dinheiro que Salvatore Cacciola - ex-dono do Banco Marka condenado por um rombo de R$1,5 bilhão nos cofres públicos - poderia ter no exterior. Às vésperas de uma decisão pelo Tribunal de Apelação de Mônaco sobre se aceita ou não o pedido do governo brasileiro para extraditar Cacciola, o Secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, alimenta o mistério sobre a existência desse dinheiro, alegando que há investigações em curso.
- Acho que deve ser uma soma considerável - diz, sem revelar se o governo tem ou não indícios.
O governo sustenta que Cacciola enriqueceu com parte do R$1,5 bilhão que obteve do Banco Central para salvar o Marka. Os advogados de defesa de Cacciola contestam, dizendo que todo o dinheiro obtido foi usado liquidar o Banco Marka.
O debate sobre a fortuna do ex-banqueiro levanta outra questão: se Cacciola tem dinheiro de origem ilícita fora do país, por que as gestões do governo brasileiro junto a governos e bancos no exterior não vieram a público até agora como ocorreu no caso de Paulo Maluf? Romeu Tuma Júnior não quer discutir o assunto até que Mônaco se pronuncie sobre a extradição do ex-banqueiro. Caso ela seja aprovada, o secretário promete ir fundo nas investigações:
- Nosso papel é ir atrás dos bandidos, não importa se têm arma ou caneta (referência ao crime do colarinho branco).
Obter informações sobre contas no exterior, bloqueio de dinheiro e repatriação - como mostrou o caso Maluf - não é tarefa fácil nem rápida. O governo brasileiro tem feito esforços nos últimos anos para fechar acordos de cooperação com diversos países, como Suíça e Luxemburgo - destino predileto de fortunas no mundo. Quando fugiu para a Itália, Cacciola morava em um apartamento de classe média, mas Tuma Júnior acredita que a aparência pode enganar:
- Tem gente que ganhou muito dinheiro com o crime e que se mostra extremamente simples, porque tem outras ações, financia outras organizações e prefere se esconder. E tem outros com mania de novo rico que querem se mostrar, comprando carro bacana.
Alessandra Mocchi, advogada italiana de Cacciola desde 2000, disse ontem que seu cliente tem medo de ser assassinado no Brasil. Ela contou que, anteontem, durante a última audiência do caso, Cacciola foi autorizado a falar e se emocionou ao dizer que perdeu sua filha (ela se suicidou) por causa do caso. A Justiça de Mônaco tem sido severa nas autorizações para visita a Cacciola. Até agora, só tiveram autorização sua namorada e seu filho Fabrizio. Segundo a advogada, Cacciola está tranqüilo e nunca reclamou da cadeia.