Título: Além do gás, Lula vai discutir com Argentina hidrelétrica e acordo nuclear
Autor: Nogueira, Danielle
Fonte: O Globo, 21/02/2008, Economia, p. 28
Porta-voz diz que Brasil não vai ceder combustível boliviano para argentinos
BRASÍLIA e BUENOS AIRES. Em vez de gás, energia hidrelétrica e combustível nuclear. É com este pensamento que o presidente Lula desembarca hoje em Buenos Aires onde, no dia seguinte, terá uma série de compromissos com sua anfitriã, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Na tentativa de colocar em marcha projetos discutidos há anos e que não se concretizaram, os presidentes assinarão acordos e protocolos de intenções que incluem a produção compartilhada de energia através da construção do complexo de Garabi, no Rio Uruguai, e a cooperação no enriquecimento de urânio.
Não há, porém, como fugir da questão do gás natural. O tema será tratado, no sábado, em reunião entre Lula, Cristina e o presidente da Bolívia, Evo Morales. Segundo uma fonte da área diplomática, qualquer mudança de posição do Brasil dependerá do poder de convencimento de Morales. Até agora, não houve flexibilização do governo.
Ontem, pela terceira vez em uma semana, uma autoridade brasileira disse que o país não abrirá mão de parte das compras de gás boliviano para os argentinos. Depois do presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, e do chanceler Celso Amorim, coube ao porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach, dar o recado:
- O Brasil está convencido de que é necessário cumprir a meta contratada de fornecimento de gás. Disso não podemos abrir mão. É uma necessidade brasileira, e as necessidades internas vêm em primeiro lugar. Não podemos nos desabastecer.
O contrato com a Bolívia prevê a oferta diária de até 30 milhões de metros cúbicos. Embora a média comprada varie de 27 milhões a 29 milhões de metros cúbicos, o governo e a Petrobras não aceitam diminuir o volume, já que, no inverno, a demanda também aumenta.
Entre os temas a serem discutidos na Argentina, destaca-se ainda o comércio em moeda local a partir de agosto. O dólar será substituído pelo peso e o real. Na área de financiamentos, haverá um acordo entre BNDES e bancos argentinos para criar uma carteira de crédito. A construção de ponte ligando os países no Rio Uruguai, a produção de reator nuclear e a livre circulação de brasileiros e argentinos também estão na pauta.