Título: Carne: Rússia apóia Brasil contra UE
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 26/02/2008, Economia, p. 25
Em visita ao país, representante russo critica embargo ao produto brasileiro.
BRASÍLIA. O Brasil ganhou um aliado de peso no impasse com a União Européia (UE) em torno do embargo às exportações de carne bovina in natura brasileira, em vigor desde o último dia 1º: a Rússia. Em visita ao país, o chefe do serviço veterinário fitossanitário do governo russo, Sergei Dankvert, afirmou que não se pode politizar problemas de ordem comercial e criticou os países desenvolvidos. Como resultado da visita, foram habilitados a exportar para a Rússia outros 40 frigoríficos brasileiros.
- Eles (a UE) vão à OMC (Organização Mundial do Comércio), dizem-se liberais em relação ao comércio, assim como os países da América do Norte, mas não querem uma solução. Não querem procurar a solução, porque não lhes traria vantagem - disse Dankvert.
O representante do governo russo chegou ao Brasil no mesmo dia em que dois inspetores da UE desembarcaram em Brasília para darem início à vistoria de cerca de 30 fazendas brasileiras. Eles mantiveram encontros técnicos na Agricultura. Na próxima semana, estarão no país outros 30 técnicos europeus.
Convidado a almoçar em uma churrascaria de Brasília com o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, Dankvert destacou que a Rússia sempre se preocupa em não regionalizar problemas pontuais. Ele lembrou que Romênia e Bulgária, membros da UE, registraram 700 casos de peste suína clássica e que, usando a lógica européia, os russos deveriam ter fechado as fronteiras para o bloco:
- A Rússia optou por não politizar o assunto. Os problemas precisam ser solucionados e não podemos escondê-los. - Se fôssemos agir como a comunidade européia age com o Brasil, deveríamos fechar todas as importações (da UE).
Segundo Dankvert, o Brasil, que vendeu 30 mil toneladas de carne para a Rússia em 2000, passou a vender 950 mil toneladas em 2007. Em fevereiro, no entanto, foram suspensas as importações de carne de bois criados no norte de Mato Grosso, após a descoberta de casos de estomatite vesicular.
Para Stephanes, não há dúvida de que as exigências da UE vão além das necessidades sanitárias e que por trás delas há uma discussão comercial:
- Tanto a Europa como os EUA não têm sido nada liberais dentro desse comércio agrícola.
Segundo ele, o pecuarista que não estiver na nova lista de 200 propriedades que poderão ser habilitadas a exportar carne bovina in natura à UE terá de se adequar às exigências do bloco para voltar a integrar a relação. Stephanes classificou de "irresponsabilidade" a ameaça de alguns empresários do setor de entrar na Justiça contra a União, se o governo assinar acordo com a UE com uma lista tão resumida. Ele reconheceu que, para haver "densidade" de exportação, seriam necessárias ao menos 4 mil propriedades habilitadas, o que deverá ser feito em um segundo momento.