Título: No palanque, com acusado de chefiar milícia
Autor: Almeida, Cássia
Fonte: O Globo, 27/02/2008, Rio, p. 25
Presidente divide espaço com deputado Natalino e, em seu discurso, critica poder paralelo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou ontem à tarde a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Bairro Araújo, em Campo Grande, uma área controlada por milícias. E dividiu o palanque com o deputado estadual Natalino (DEM), acusado pelo Ministério Público de ser um dos chefes do grupo que cobra taxas de proteção e explora serviços clandestinos de TV por assinatura e transporte pirata na Zona Oeste. Natalino é irmão do vereador Jerominho (PMDB), preso desde dezembro, também acusado de ser um dos chefes da milícia conhecida como Liga da Justiça.
Lula inaugurou a UPA com o governador Sérgio Cabral. Natalino, que não foi preso por ser deputado e ter imunidade parlamentar, chegou ao local acompanhado por cerca de 20 pessoas. Antes e durante a cerimônia, com o presidente no lugar, o grupo puxou um coro: "Com Jerominho e Natalino, nossa Zona Oeste é tratada com carinho".
Militantes do PT posicionados em frente ao palanque tentaram abafar o coro, mas nem sempre conseguiram.
Lula parece ter ficando desconfortável com a situação. No discurso, fez uma referência indireta às milícias. Segundo ele, o povo do Rio quer viver dignamente, mas, se o estado, a prefeitura e a União não se mobilizam, isso gera conseqüências negativas:
- Gente que não deveria vai tomando conta dos espaços democráticos. Vai virando dona. O bandido começa a cobrar pedágio, começa a dizer quem entra ou quem não entra. E a maioria das pessoas honestas é marginalizada - disse Lula
Antes de o presidente chegar, Natalino usou um carro de som para afirmar que a construção do posto era uma conquista dele e do irmão. Ele aproveitou para protestar contra a prisão do vereador .
- O Jerominho está preso, mas ele se encontra espiritualmente presente com vocês aqui - discursou Natalino.
O deputado encerrou o ato a pedido do cerimonial da presidência. Ele disse que o irmão intermediou as negociações com o prefeito Cesar Maia para transferir ao estado propriedade da área para construir a UPA. Cesar confirmou ter sido procurado por Jerominho. Mas disse que as negociações foram feitas diretamente com o estado.
Natalino subiu ao palanque, sem que seu nome tivesse sido anunciado, quando autoridades já discursavam. Depois, ele afirmou que foi chamado ao local pelo presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB). Natalino voltou a negar que ele e o irmão tenham envolvimento com milícias na região. Ele alega que as denúncias são fruto de perseguição política.
A cerimônia teve outros protestos. Um grupo que prestou concurso para agente penitenciário em 2003 e nunca foi chamado levou faixas e cobrou de Cabral o fato de não ter sido convocado. Ao discursar, Cabral foi vaiado e retrucou:
- Estou há um ano no governo, companheiros.
Moradores de Vila Kennedy também levaram faixas, pedindo obras do PAC. Funcionários da Central (ex-Flumitrens) protestaram contra demissões.