Título: Europa libera compra de carne de 106 fazendas
Autor: Oliveira, Eliane; Rodrigues, Lino
Fonte: O Globo, 28/02/2008, Economia, p. 25

Com a decisão, volume exportado para a região cairá de 280 mil toneladas para 1.400 toneladas. Lista pode crescer

BRASÍLIA e SANTOS. Pressionada por importadores da região e pelas críticas que partiram até de seus vizinhos (os russos), mas disposta a mostrar que quem manda é o cliente, a União Européia (UE) decidiu ontem liberar, imediatamente, as importações de carne bovina in natura de 106 fazendas brasileiras. A lista corresponde a apenas 2,12% das cerca de cinco mil propriedades que, segundo o governo brasileiro, estariam aptas a vender ao bloco.

O total de fazendas liberadas, segundo a Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), é o mesmo que nada: se a UE demorar a conceder novas autorizações, a quantidade exportada ao mercado europeu cairá de 280 mil toneladas, em 2007, para 1.400 toneladas.

A liberação foi anunciada pelo embaixador da UE no Brasil, João Pacheco, e surpreendeu governo e produtores. Ele disse que as portas não estão fechadas, e novas listas poderão ser abertas, basta o governo fazer o dever de casa e enviar relatórios de auditoria das fazendas que se candidatam a exportar. O Brasil quer a ampliar a lista.

A missão de veterinários que está no Brasil vai vistoriar uma pequena amostra do grupo das 106 fazendas, disse Pacheco.

- No papel está tudo certo (com as 106) - afirmou.

Ontem, após se reunir com o embaixador europeu, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, disse que a decisão representa a reabertura do mercado europeu à carne brasileira e que as exportações devem voltar à normalidade até o fim do ano:

- É um sinal positivo, significa que a UE tem interesse na carne brasileira.

Para o ministro, ficou consolidada uma relação de confiança, porque a liberação foi decidida antes que os inspetores realizassem auditorias.

O anúncio encerra o primeiro round, com vitória européia, da batalha iniciada no fim do ano passado, quando o governo apresentou uma lista de 2.700 propriedades, rejeitada pela UE. O embate culminou com a suspensão das compras de carne. Há duas semanas, o Ministério da Agricultura voltou a apresentar uma relação, de 600 propriedades. Mas os europeus exigiram, no máximo, 300 fazendas. Ontem, chegou-se a 106.

O presidente do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte da CNA, Antenor Nogueira, afirmou que a medida é um "embargo branco". Ele acredita que o melhor é entrar com uma ação na Organização Mundial do Comércio (OMC). O deputado ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO) avisou que entrará na Justiça do Brasil com um mandado suspensivo.

Representante russo critica comportamento da UE

Para a Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carnes (Abiec), no entanto, a medida foi positiva. Segundo o diretor do Departamento Econômico do Itamaraty, Carlos Márcio Cozendey, a decisão mostra que a UE está disposta a resolver a questão tecnicamente.

No Brasil para fiscalizar o cumprimento das exigências de controle da carne exportada para a Rússia, o chefe do Serviço Veterinário e Fitossanitário russo, Sergei Dankvert, aproveitou a visita que fez ontem ao Porto de Santos para voltar a criticar o comportamento da UE. Ele elogiou as condições de segurança e armazenamento da carne exportada para seu país e disse que os europeus não têm interesse em voltar a importar a carne brasileira.