Título: Em caso de guerra, desenlace imprevisível
Autor: Galeno, Renato
Fonte: O Globo, 04/03/2008, O Mundo, p. 25

Num conflito em duas frentes, vantagem militar da Colômbia não seria decisiva. Território do Brasil seria afetado

A intensa e raras vezes vista movimentação diplomática em todas as chancelarias da América do Sul não é uma reação exagerada. Uma guerra entre Colômbia, de um lado, e Venezuela e Equador, do outro, seria um dos piores pesadelos para estrategistas militares, trazendo a possibilidade de um conflito longo e com prováveis conseqüências para países não envolvidos na disputa - em especial, o Brasil.

Analistas frisam que o fato de todos os três Estados terem tanto a perder com um guerra torna um confronto militar pouco provável. Mas caso a crise desemboque num conflito, e difícil saber quem sairia vencedor.

- Não me arriscaria a afirmar quem prevaleceria numa guerra de Colômbia contra Venezuela e Equador - afirmou ao GLOBO um oficial da Escola Superior de Guerra que, devido à sua função, pediu para que seu nome não fosse citado.

Ele explica que a atual superioridade das Forças Armadas colombianas não garantiria a vitória. Hoje, a Colômbia tem cerca de 85 mil soldados no Exército, equipamento sofisticado e apoio estratégico dos Estados Unidos. O Plano Colômbia, que prevê altos investimentos dos EUA nas forças de segurança do país, inclusive conselheiros militares, tornam Bogotá uma potência bélica regional.

Venezuela conta com armamento moderno russo

Mas isso não seria suficiente para dar ao país uma grande vantagem em relação aos dois vizinhos. Em primeiro lugar, os altos investimentos do presidente Hugo Chávez em armamento modernos russos nos últimos anos já tornaram as Forças Armadas venezuelanas mais operacionais. O país já conta com quase 83 mil soldados. E as Forças Armadas do país tendem a se tornar ainda mais fortes: até dezembro, o país deve ter mais 800 blindados anfíbios. Em cinco anos, calcula-se que o país terá 138 novos navios, entre três e dez submarinos russos e - segundo plano de Chávez - uma força de 500 mil soldados. Para ilustrar, o contingente atual das três Forças Armadas do Brasil é de 300 mil. Fora isso, o oficial da ESG afirma que há grande desconfiança internacional com as grandes compras de fuzis por parte de Caracas, em número bem maior de que seu contingente - é possível que uma parcela deles caia nas mãos dos guerrilheiros colombianos.

Isoladamente, o Equador tem um poderio bélico menor. Mas o país conta com equipamento militar diversificado de várias origens: Canadá, Estados Unidos, França, Israel e até mesmo do Brasil. Mas o maior problema para a Colômbia numa guerra contra o Equador não seria a capacidade militar de Quito em si, mas o cenário de um confronto em dois fronts. Para Bogotá, significaria um conflito no sudoeste (cerca de 500 quilômetros de fronteira com o Equador) e outro no leste (mais de dois mil quilômetros com a Venezuela) simultaneamente.

- Uma guerra em duas frentes é muito difícil para a Colômbia, não acredito que o país tenha essa capacidade - disse o oficial da ESG. - O ideal é concentrar tudo numa única frente. Em duas, há problemas de controle, de coordenação e de divisão de meios.

Território brasileiro é vulnerável na região

As razões por trás das ações de Colômbia e Equador também tornam difícil apontar um culpado pela escalada da crise, segundo um raciocínio que siga a linha da defesa do Estado.

- A Colômbia luta contra uma guerrilha que age dentro de seu próprio território. Neste sentido, atravessar a fronteira para atacar as Farc foi algo feito para se proteger. As fronteiras naquela região têm pouco controle, é área de selva densa. - afirmou o professor de relações internacionais Williams Gonçalves, da UFF. - Por outro lado, os militares equatorianos não podem aceitar a violação da soberania do país. Se permitem isso, cria-se um problema muito sério.

Para o Brasil, uma guerra entre vizinhos na sua fronteira não seria apenas uma perturbação para os diplomatas do Itamaraty. O território brasileiro é muito vulnerável na região, e a entrada de guerrilheiros e até de soldados dos países beligerantes ocorreria inevitavelmente.

- Os Estados-Maiores das Forças Armadas brasileiras estão acompanhando de perto a evolução dos acontecimentos. O Comando Militar da Amazônia deve estar alerta. O Brasil tem entre 20 mil e 25 mil soldados na Amazônia. É pouco - disse o oficial da ESG.

- Um conflito ali vai esparramar para o Brasil - afirma Gonçalves.