Título: Ataque transforma avião em vedete de feira aérea
Autor: Azevedo, Cristina
Fonte: O Globo, 06/03/2008, O Mundo, p. 32
Embraer aposta em novas encomendas de supertucano usado pela Colômbia contra Farc
O ataque aéreo ao acampamento das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc), que resultou na morte do número 2 das Farc, Raúl Reyes, vai transformar o avião brasileiro A-29 supertucano numa das vedetes da maior feira aérea da América do Sul. Embora o governo brasileiro tenha condenado a ação, pela invasão colombiana em território do Equador, os executivos da Embraer esperam receber encomendas de sua aeronave de ataque leve na Feira Internacional do Ar e do Espaço (Fidae), que será aberta em Santiago do Chile no dia 31.
O maior trunfo da Embraer, para enfrentar a concorrência, é o êxito da operação, que combinou a aeronave brasileira (a Colômbia comprou 25 delas em 2005) com a aviônica (instrumentos e sistemas de vôo e ataque) americana e israelense, precedida de um trabalho de inteligência.
- Comercialmente, para Embraer foi ótimo. É preciso olhar para a qualidade do serviço que foi prestado - disse Luciano Porto, representante da feira no Brasil.
Embraer já vendeu 124 aviões ao Brasil e Colômbia
A Embraer, que já vendeu 99 A-29 para a Força Aérea Brasileira e os 25 para a Colômbia, negocia agora encomendas para a República Dominicana e Costa Rica. O avião participa de outras concorrências. Suas chances são menores em países que pretendem empregá-lo em treinamento - porque o supertucano praticamente perdeu estas características, transformado pela Embraer em avião de ataque.
Como ocorreu em 1º setembro do ano passado, quando a aviação colombiana matou o guerrilheiro Tomás Medina Caracas, o Negro Acacio, apontado como o guerrilheiro que deu refúgio ao traficante Fernandinho Beira-Mar, os pilotos dos supertucanos só puderam atacar durante a noite porque contavam com equipamentos de última geração.
Os dois ataques são inéditos na história na aviação militar sul-americana. Para lançar bombas com precisão a 5 mil metros de altitude, os A-29 colombianos utilizaram, por exemplo, o sistema FLIR Brite Star, de terceira geração, que além de cumprir todas as funções encontradas no modelo brasileiro, funciona como designador para lançamento de bombas guiadas a laser.
O avião colombiano, que exibe uma enorme boca de tubarão pintada no motor, contou também com um telêmetro (Laser Range Finder), localizado logo abaixo da entrada de ar, que fornece a distância para o alvo, e um sistema de comunicação que permite o contato dos pilotos (o avião tem dois lugares, biplace) com as forças de superfície (empregadas nos dois ataques) em tempo real.
Para aumentar a precisão, os pilotos colombianos também dispõem de um sistema, acoplado ao capacete, chamado Night Vision Google, que o faz enxergar à noite como se fosse um dia claro. Militares brasileiros que acompanharam o ataque afirmam que uma operação deste nível, baseada em trabalho prévio de inteligência, consome até dois meses de planejamento - incluindo o estudo do alvo e a possibilidade de existência de população local, povos indígenas ou seqüestrados com os guerrilheiros, o que determina a abortamento da ação.
O esquadrão colombiano, hoje um dos maiores temores da guerrilha, fica no Comando Aéreo de Combate nº 2, em Apiay, a 100 quilômetros de Bogotá. Em um ano, os pilotos já haviam feito 1.200 missões de ataque - um deles chegou a lançar 472 bombas.
Os colombianos não negam o grau de sofisticação. Só não confirmam que, para atingir o alvo, os supertucanos ingressaram no país vizinho.
- As bombas foram disparadas da Colômbia, a uma distância aproximada entre 3 a 5 milhas da fronteiras - disse o representante da Colômbia na OEA, Camilo Ospina.