Título: Venezuela se fecha para Colômbia
Autor: Azevedo, Cristina
Fonte: O Globo, 05/03/2008, O Mundo, p. 28
Caracas ordena bloqueio de fronteiras e Uribe quer denunciar Chávez como "financiador de genocidas".
Apesar dos pedidos de calma e de diálogo feitos pela comunidade internacional, os governos de Colômbia, Equador e Venezuela partiram para duras ofensivas ontem, demonstrando que pretendem acirrar ainda mais a crise provocada pela ação militar colombiana de sábado contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em território equatoriano. O governo de Caracas fechou suas fronteiras com a vizinha Colômbia, sua principal parceira comercial no continente, e mobilizou mais tropas para o que chamou de "eventual necessidade de defesa". O Equador, que na segunda-feira rompeu relações diplomáticas com Bogotá, ameaça agora cancelar todos os acordos comerciais e proibir empresas equatorianas de fazer negócios com a Colômbia. O governo colombiano, por sua vez, anunciou que vai denunciar o presidente venezuelano, Hugo Chávez, no Tribunal Penal Internacional (TPI) por "patrocínio e financiamento de genocidas".
O fechamento da fronteira entre Venezuela e Colômbia é a primeira grande medida de impacto econômico resultante da crise entre os três países. O intercâmbio comercial entre venezuelanos e colombianos chega a US$6 bilhões por ano e 30% dos produtos consumidos na Venezuela são produzidos na Colômbia. A medida, segundo especialistas, trará grandes prejuízos para empresas colombianas e pode fazer com que a crise de abastecimento na Venezuela, que se agravou em 2007, tome proporções dramáticas. Mas o ministro da Agricultura e Terras da Venezuela, Elias Jaua, diz que o país nada sofrerá com o fechamento.
- Tomamos algumas medidas, como o fechamento da fronteira, pois não podemos depender de absolutamente nada de um país que adota uma postura de guerra contra todos seus vizinhos. Já faz tempo que importamos alimentos de outros países e essa história de crise de abastecimento não passa de terrorismo midiático - disse.
No fim da tarde, alguns postos de fronteira permitiram a entrada na Venezuela de caminhões colombianos com alimentos básicos e produtos perecíveis.
No Equador, o clima também é de hostilidade crescente em relação ao governo de Uribe. O presidente Rafael Correa iniciou uma viagem pelas américas do Sul e Central em busca de apoio para a posição do país e ordenou que seu corpo diplomático busque meios de punição da Colômbia em entidades intergovernamentais.
Farc pretendia fazer bomba radioativa, diz Bogotá
A Colômbia também aumentou o tom de suas ameaças, ao mesmo tempo em que pesquisas indicaram que mais de 80% apóiam o presidente Alvaro Uribe na crise. Além de anunciar que vai levar Chávez ao Tribunal Penal Eleitoral, Bogotá divulgou mais documentos que serviriam de provas de envolvimento dos governos equatoriano e venezuelano com a guerrilha, em especial com Raúl Reyes, dirigente das Farc morto durante a ação de sábado. Chávez é acusado de ter repassado cerca de US$300 milhões para os guerrilheiros.
- Temos elementos suficientes para acusar Hugo Chávez perante o Tribunal Penal Internacional por patrocinar e financiar genocidas. Vamos fazer isso de forma enfática - disse o presidente.
Outra acusação importante foi feita pelo vice-presidente colombiano Francisco Santos, que afirmou que as Farc haviam comprado 50 quilos de urânio e pretendiam fazer uma "bomba suja".
- Isso é motivo de alarme para toda a América Latina - disse Santos na Conferência de Desarmamento da ONU.
O governo colombiano obteve ontem o apoio explícito do presidente dos EUA, George W. Bush, que acusou a Venezuela de manobras provocativas. Bush também pediu ao Congresso americano que acelere a aprovação do Tratado de Livre Comércio (TLC) com a Colômbia.
- Nossa mensagem ao presidente Uribe e ao povo colombiano é que continuaremos ao seu lado e que defendemos nossos aliados democráticos - disse.
Nas ruas da capital Bogotá, o policiamento é forte, mas devido ao temor de uma revanche das Farc e não pela crise internacional. Sindicatos e associações têm saído em apoio a Uribe. Por outro lado, os hotéis de Bogotá já sentem o cancelamento de reservas de hóspedes venezuelanos, que desistiram de viajar depois que a crise começou.
Já as Farc anunciaram ontem que o guerrilheiro Joaquín Gómez foi escolhido substituto de Raúl Reyes.
Com agências internacionais