Título: Investimento em ações com risco turbinado
Autor: Rangel, Juliana
Fonte: O Globo, 10/03/2008, Economia, p. 21

Cresce procura de pessoas físicas pelo mercado de opções como proteção, mas segmento exige orientação de especialistas

Com as fortes oscilações das bolsas mundiais nos últimos meses, investidores têm ouvido falar do mercado de opções de ações como forma de se protegerem. Altamente volátil, arriscado e mais sofisticado, o mecanismo consiste basicamente em comprar ou vender o direito de adquirir uma ação no futuro a um determinado preço. Também existem opções de venda de ativos, mas elas têm baixa liquidez no Brasil. Para garantir estes direitos, o investidor paga um valor (ou prêmio).

Em fevereiro deste ano, o volume de negócios com opções na Bovespa chegou a R$2,9 bilhões, com crescimento de 26% na comparação com o mesmo mês do ano passado, quando ficou em R$2,3 bilhões. Deste total, 62% das operações foram feitas por pessoas físicas, contra 25% no mercado à vista. A Petrobras foi o papel mais líquido, com peso de 68% nos negócios com opções, seguida de Vale (19%) e do índice Ibovespa (9%).

O professor de finanças pessoais do Ibmec-RJ Paulo Di Blasi compara a operação à compra de um imóvel:

¿ O investidor fecha a data do negócio, o valor do apartamento e dá um sinal de entrada, que seria, no caso da opção, o prêmio.

Se, no futuro, o comprador achar que o imóvel está caro demais, pode desistir do negócio, mas terá perdido o sinal, explica Di Blasi. Por outro lado, o proprietário (que no mercado de opções seria chamado de lançador da opção) terá a obrigação de vendê-lo pelo preço acertado, se o investidor assim o quiser, ainda que o imóvel tenha se valorizado.

Pequenos investidores preferem comprar opção

O valor do prêmio varia de acordo com cinco fatores: cotação da ação em questão no mercado à vista, preço do exercício (valor combinado para a compra ou venda), prazo de vencimento da opção, volatilidade da ação e taxa de juros livre de risco (Selic).

¿ Do dia da compra até o vencimento do exercício da opção, o investidor compara o preço combinado, na opção, com a cotação do papel no mercado à vista. Se a opção estiver mais barata, vale a pena exercê-la. Mas, se o preço no mercado à vista não ultrapassar o valor do exercício da opção até o seu vencimento, ela não irá valer nada. Neste caso, dizemos que ela virou pó, e os compradores terão perdido o prêmio pago na operação ¿ explica Di Blasi.

Segundo o diretor de operações da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), Ricardo Pinto Nogueira, os pequenos investidores que entram no mercado de opções geralmente são compradores de uma opção de compra. Isto porque, neste caso, a perda financeira é limitada ao valor do prêmio.

¿ É uma ferramenta de especulação para o investidor que não tem dinheiro para comprar ações agora. Se ele acha que o papel vai subir mas não tem dinheiro para comprar no mercado à vista, pode comprar opções de compra, garantindo seu direito de adquirir o papel a um preço determinado no futuro. Para isso, terá que desembolsar apenas o valor do prêmio, que é muito menor que o preço da ação. Este também será o limite de sua perda, se ele preferir não exercer a opção (fazer valer seu direito de compra) ¿ explica.

Para quem vende a opção de compra, o céu pode ser o limite para o prejuízo.

¿ Quando uma pessoa vende uma opção de compra, está prometendo entregar o papel por aquele preço, de R$80 por ação, por exemplo. Se o papel for a R$90, o lançador perde R$10, se for a R$100, perde R$20. Quanto mais a ação subir, mais ele vai perder ¿ diz.

Corretoras não aconselham operações por conta própria

Por isso, continua o diretor da Bovespa, é fundamental que o investidor que está lançando uma opção de compra tenha aquele papel em sua carteira ¿ para não precisar comprá-lo no mercado à vista, na hora da entrega, correndo o risco de pagar um valor maior. Muitas corretoras não permitem operações a descoberto.

Nogueira também alerta para a forte volatilidade dos prêmios, ou seja, do valor da opção. Uma vez negociados, eles podem ser repassados a outros investidores, a novos preços. Se a ação de uma empresa sobe 10% em um único dia, por exemplo, de R$80 para R$88, o valor da opção pode variar muito mais.

¿ Ele pode pular de R$1 para R$8, por exemplo. Quem adquiriu uma opção de compra, neste caso, pode repassar este direito a um outro investidor, cobrando um preço mais alto pelo prêmio ¿ diz.

A volatilidade e os riscos são tantos que algumas corretoras não permitem operação direta com opções via home broker (sistema que permite envio de ordens de compra e venda de papéis, na tela do computador).

A Ágora, por exemplo, desestimula este tipo de operação. O Bradesco redireciona o investidor para uma tela e aconselha que ele entre em contato com a mesa de operações. Na Planner, a recomendação é de que os investidores também busquem a orientação de um assessor de investimentos.

¿ O investidor que ainda não tem controle profundo do mercado à vista não deve entrar em opções. Mas, caso ache que já pode dar um segundo passo, minha dica é que procure orientação ¿ ressalta Nogueira.

Volume de negócios aumenta em tempos de crise

O executivo Marcelo Sampaio esperou cerca de dois anos, depois que começou a comprar ações via home broker, para negociar opções. Atualmente, ele conta com a ajuda da corretora Ativa.

¿ No começo, a gente se anima e fica fácil perder dinheiro. Hoje, eu só opero para me proteger. Quando o mercado está volátil, lanço uma opção de compra e embolso o prêmio. Se o papel cair, eu já garanti algum ganho ¿ conta.

Outra estratégia usada por ele é lançar uma emissão de compra e adquirir uma opção de compra de um mesmo papel.

¿ Se a ação cair, a perda é limitada ao prêmio pago. Se subir, o ganho é infinito ¿ revela.

De acordo com Nogueira, da Bovespa, a tendência é de que a procura por opções aumente em tempos de incertezas, exatamente pela possibilidade de formatação de estratégias. No site da Bolsa existe uma cartilha sobre opções, com testes, perguntas e respostas.