Título: Mas vocês são cachorros
Autor: Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 07/03/2008, O País, p. 3

Pedro relata tratamento de policiais em telefonema aos pais.

Aluno exemplar no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), onde faz mestrado em ciências políticas há um ano, Pedro Luiz Lima, de 25 anos, se viu diante de uma situação irônica: a caminho de Lisboa para apresentar um trabalho sobre democracia, ficou detido sem qualquer explicação por mais de dois dias em Madri.

O trabalho, no qual propunha um diálogo entre as idéias do alemão Jürgen Habermas e as do italiano Antonio Negri, seria apresentado no congresso da Associação Portuguesa de Ciência Política. Pedro representava o Iuperj com a colega Patrícia Rangel, de 23 anos, detida com ele e outros oito jovens, que conseguiram seguir viagem. Segundo Pedro, eles sofreram tratamento discriminatório e foram chamados de cachorros por um policial.

O drama começou logo no desembarque em Madri, pouco depois das 10h (horário local), onde fariam conexão para Lisboa. Segundo os pais de Pedro, os professores Luiz Carlos Lima e Rosaly da Silva, os jovens teriam sido encaminhados para um ônibus com as janelas vedadas. Depois de 20 minutos, chegaram a um local que parecia em obras, onde havia algumas salas. Lá, se viram acompanhados por outras 400 pessoas, a maioria latinas, número que foi diminuindo ao longo do dia.

Durante todo o tempo, ficaram sob a vigilância de policiais com pastores alemães. Mas, segundo Pedro, em nenhum momento as autoridades espanholas deram qualquer explicação.

- Alegavam que havia problema com os documentos, mas não diziam qual. Também disseram que estávamos com pouco dinheiro, mas mandaram outra pessoa de volta por excesso de dinheiro - contou Pedro à mãe, por telefone, ontem à tarde.

As primeiras quatro horas foram as mais dramáticas, com Pedro tendo sido deixado sem comida e água mesmo depois de mostrar os documentos, R$1.000 em euros e libras (ele seguiria para Londres) e cartões de crédito, além do itinerário da companhia Iberia, que mostrava que ele já estava com a volta para o Brasil marcada para o dia 17. Quase 12 horas depois do desembarque em Madri, permitiram que Pedro ligasse para os pais.

De acordo com o relato de Pedro aos pais, era difícil entender o que estava acontecendo porque os policiais respondiam de forma evasiva às perguntas dos detidos.

- Diziam coisas tipo: "Vocês sabem por que estão aqui" - conta Rosaly.

Depois de horas sem explicações, Patrícia teria começado a chorar, e foi repreendida. Foi então que Pedro dirigiu-se a um dos policiais dizendo que eles estavam sendo tratados como cachorros. - E ele respondeu: "Mas vocês são cachorros" - contou Pedro.

Depois desse primeiro telefonema, Pedro ganhou comida e água e pôde falar mais vezes com os pais. Preocupado, Luiz Carlos telefonou pelo menos dez vezes, na madrugada, para o número do qual o filho havia ligado.

Os pais então localizaram o cônsul-geral do Brasil em Madri, Gelson Fonseca, que se pôs à disposição. Segundo os pais, o cônsul chegou a conversar com Pedro por telefone, mas nada disse de objetivo. No fim da manhã de ontem (hora de Madri), Pedro passou por uma espécie de entrevista, na qual foi informado que seria mandado de volta para o Brasil no vôo de meio-dia (também hora local) de hoje.

- Parece que vão nos manter por mais uma noite de pirraça, por causa do "desacato" do choro, já que pessoas que foram entrevistadas depois de nós estão sendo mandadas de volta no vôo de meia-noite de hoje (ontem) - disse Pedro.

- É um processo kafkiano, um seqüestro em vários níveis, não só da pessoa como da sua cidadania. O rapaz vai para fora mostrar o seu trabalho, representando um instituto brasileiro e, por tabela, o Brasil, e acontece uma coisa dessas - lamenta Luiz Carlos.