Título: Patrícia vai entrar com ação contra governo espanhol
Autor: Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 07/03/2008, O País, p. 3

Depois de dez horas, polícia informou que estudante seria deportada porque carregava pouco dinheiro.

JUIZ DE FORA (MG). A estudante Patrícia Rangel, de 23 anos, esperava defender em Portugal sua pesquisa de mestrado sobre discriminação contra as mulheres. A palestra no congresso estava marcada para ontem. Patrícia, entretanto, não compareceu. No mesmo horário, ela estava com o colega, Pedro Lima, presa em uma sala do Aeroporto de Madri, tendo passado cerca de dez horas sem comer, sem beber e sem qualquer contato com os familiares, desde que seu vôo fez escala na capital espanhola, na última quarta-feira.

Patricia e Pedro permaneciam sob guarda até ontem. O embarque para o Brasil está previsto para hoje. A estudante deixou o Brasil às 20h de terça-feira, com previsão de escala em Madri. Logo que chegou, porém, foi levada para uma sala reservada, onde ficou até as 20h sem qualquer comunicação. Após esse período, o grupo foi encaminhado para outro cômodo, onde havia camas.

Neste momento, Patrícia recebeu sua bolsa de volta, somente com o dinheiro que tinha levado para a viagem (40 euros por dia), recebeu uma refeição e fez o primeiro contato com sua família, em Juiz de Fora (MG).

- Ela estava muito assustada com a discriminação que sofreram. Eles não tinham qualquer informação sobre o que estava acontecendo - afirmou a mãe, Jucineide Rangel, professora da rede municipal.

Depois disso, a estudante fez outros dois contatos com os familiares. No último, ao meio-dia de ontem, informou que retornaria ao Brasil hoje e que, finalmente, a imigração tinha justificado sua detenção: ela não teria dinheiro suficiente para seguir a viagem.

- Eles falaram isso porque não tinham nada para argumentar. Ela tinha pouco dinheiro, mas o mínimo que foi solicitado pela associação. Além disso, o Pedro tinha mais. Por que também ficou detido? - indagou Jucineide, que suspeita de que a filha e o colega tenham ficado mais tempo presos por terem discutido com os policiais.

A filha poupou a mãe dos detalhes do constrangimento.

- Ela só me disse que eu não sabia o que ela estava sofrendo e que os policiais colocaram todos sentados no chão, tratando-os como cachorros.

Em todo esse período de indefinição, um representante da diplomacia brasileira entrou em contato com a família apenas uma vez. Os parentes agora esperam Patrícia para decidir os detalhes de uma ação judicial contra o governo da Espanha.

Patrícia é formada em relações internacionais pela PUC-Rio. Há um ano é aluna de mestrado do Iuperj. No fim de 2007, foi selecionada para a apresentação em Lisboa pela associação portuguesa, que subsidiou praticamente todo o valor da passagem.