Título: Não existe vida mole no Banco do Brasil
Autor: Duarte, Patrícia; Fadul, Sergio
Fonte: O Globo, 09/03/2008, Economia, p. 37
Lima Neto diz que indicação política não atrapalha desempenho. BB estuda criar financeira e abrir agências na América do Sul.
BRASÍLIA. Ao mesmo tempo em que reconhece que o Banco do Brasil está pegando com atraso o bonde que jogou nas alturas o lucro do setor em 2007, o presidente da maior instituição financeira do país, Antônio Lima Neto, quer mostrar que a estatal está numa fase mais moderna, ao completar 200 anos. Com bancos privados no encalço, o BB partiu para aquisições de bancos públicos, abertura de financeira e internacionalização, com planos de atuar no Mercosul. Funcionário de carreira do banco, onde entrou em 1979, ele afirma que as indicações políticas não atrapalham o desempenho. "Não existe vida mole no BB", diz, destacando que todos são tratados como executivos. "É porrada ou elogio quando merece".
Patrícia Duarte e Sergio Fadul
O Banco do Brasil está completando 200 anos. Qual é o futuro do BB diante do avanço dos bancos privados?
ANTÔNIO LIMA NETO: O ano passado foi importante porque projetos que imaginamos em 2005 começaram a apresentar resultados. Claro que são números ainda pequenos para o tamanho do BB. Um exemplo é o mercado de cartão de crédito e débito, que faturou R$41 bilhões em 2007. Queremos chegar em 2012 com R$120 bilhões. Trocamos ainda o conceito de correntistas para consumidor de produtos bancários. Hoje, em cartões de não-correntistas temos R$1,2 bilhão em faturamento. Mas é um mercado de R$82 bilhões. Criamos também uma diretoria de seguros e o objetivo é fazer 25% do resultado geral. Outra diretoria nova é específica para os mercados imobiliário e de veículos. Temos, no mercado de veículos, R$3 bilhões e queremos, no fim do ano, chegar a R$6 bilhões.
E como isso será feito?
LIMA NETO: A operação de veículos tem custo variável, que exige dinamismo, características de aprovação (de crédito) muito específicas, definidas no momento da compra. Poderia ser criada uma empresa financeira para isso.
O BB teve lucro inferior ao dos principais concorrentes em 2007. Ele perdeu o bonde?
LIMA NETO: A avaliação está correta. Mas, o BB, ao tomar as decisões que já citei não perde mais. Tem um indicador que dá a dimensão do potencial de crescimento da carteira de crédito para pessoa física. Hoje ela está em R$32 bilhões, que é pouco. O fato de incorporarmos dois bancos (Besc, de Santa Catarina, e BEP, do Piauí) vai ajudar. Ainda tem o BRB (do Distrito Federal), em negociação. O "perdeu o bonde" é coisa do passado.
O senhor considera que o lucro dos bancos privados em 2007 foi exagerado ou o do BB é que foi pequeno?
LIMA NETO: Cada empresa tem o seu tempo. O tempo do BB é (um lucro) de R$5 bilhões e de enfrentamento de uma agenda para melhorar cada vez mais seu resultado. Os concorrentes começaram suas operações em 2000 e agora elas estão maduras. As do BB não estão maduras ainda. Nos números, isso começa a aparecer cada vez mais na carteira de crédito.
As amarras que o banco tem, como precisar de autorização do Congresso para criar uma empresa, pesa nos planos de expansão?
LIMA NETO: Não pesa porque há alternativas. Tenho visto algumas análises equivocadas. O resultado corrente do banco no ano passado foi muito bom. Ele está num processo de mudança de patamar do seu resultado há muito tempo. Os bancos concorrentes começaram a adquirir outros bancos entre a década de 1990 e 2000. O BB, só no ano passado. Então, não são lineares essas coisas: o BB vai perder a liderança? Não vai. Existem opções estratégicas.
Que opções?
LIMA NETO: Sócios. O banco não precisa ser majoritário (nos negócios).
Isso vale para aquisições de instituições privadas?
LIMA NETO: Pode-se comprar uma participação não majoritária desde que complemente sua operação. Mas é preciso deixar claro que o negócio prioritário para o BB, na questão de possíveis aquisições, são bancos públicos. Privados, só se surgissem oportunidades. Ainda há muitos bancos públicos.
As classes D e E têm sido o destaque no mercado de crédito, quais os planos para essa parcela da população?
LIMA NETO: O banco nunca saiu desse segmento. Com desemprego em queda e o país crescendo a mais de 4%, as pessoas querem conta corrente. A base de 26 milhões de correntistas do banco cresce a mais de um milhão de novos por ano.
E isto será feito via Banco Popular?
LIMA NETO: No Banco Popular temos uma solução interessante, só que dentro do BB existem dez milhões de correntistas que ganham até um salário mínimo. O Banco Popular tem um milhão. Então é possível que a gente faça uma profunda sinergia. Não devemos acabar com a marca Banco Popular. O BB está expandindo o crédito e nos deparamos aqui dentro com dez milhões de pessoas que recebem até um salário. Estamos vendo a melhor forma de fazer. O BB ter feito o Banco Popular foi uma iniciativa importantíssima, até para se preparar para esse período que vem aí.
O banco está entrando no varejo bancário nos EUA. Há outros países em vista?
LIMA NETO: Estamos vendo possibilidades na América do Sul, basicamente no Cone Sul. Já temos uma rede, mas é comercial, basicamente para financiar operações de empresas brasileiras. Temos na Argentina, no Chile, no Paraguai e, no Uruguai, recentemente reabrimos o escritório. Somos um banco de varejo. No Mercosul, estamos vendo uma operação de varejo mais abrangente. Nos EUA, temos o foco em brasileiros.
Como é presidir um banco sob ingerência política, isso não atrapalha e interfere nos resultados ?
LIMA NETO: Se pegarmos desde quando o banco foi reconstruído, em meados da década de 1990, temos tido com o acionista minoritário extremo cuidado. O banco tem agenda e os governos têm compreendido isso. Vamos imaginar algumas perguntas que, dependendo da resposta, você sabe se o banco é prejudicado ou não. O governo tem se comprometido com o free float (ações negociadas no mercado) do banco? Tem. O Tesouro teve de assinar um compromisso de adesão ao Novo Mercado. O governo tem impedido o banco de tomar decisões difíceis e não simpáticas ao corpo funcionário? Não. O governo tem impedido o banco de se fortalecer? Não. O acionista majoritário, enquanto estatal, não trouxe nenhum constrangimento para a melhoria de governança do banco.
Não é incômodo para o principal executivo ver parte da sua equipe ser montada externamente, talvez, até, preterindo escolhas suas?
LIMA NETO: Todos os diretores nomeados recentemente foram apresentados, conhecidos e entrevistados.
O clima para cobrança não fica comprometido quando se sabe que por trás daquela pessoa há um partido, um acerto político?
LIMA NETO: Não tem problema, é como executivo mesmo. É porrada ou elogio quando merece. Por ser uma estatal, é possível virem pessoas do governo para cá. Como tem acontecido ao longo dos anos. Mas, todos eles são bons naquilo que será a sua responsabilidade. Vamos pegar um exemplo: o Guedes (Luís Carlos Guedes Pinto, ex-ministro da Agricultura no governo Lula, ligado ao PT e vice-presidente de Agronegócios). Conhece esse negócio como ninguém, é respeitado pelo setor e foi ministro. Não existe essa ingerência política que falam por aí, de que os caras vão lá só para assinar o ponto. A agenda é pesada para caramba. O Dr. Guedes, o Dr. Maguito (senador Maguito Vilela, ex-governador de Goiás, filiado ao PMDB e hoje vice-presidente de Governo), como eu, como outros vice-presidentes do banco, têm agenda pesada e é porrada todo dia. Esse resultado de R$5 bilhões (lucro de 2007) foi construído por essas pessoas. O Maguito trabalha para caramba, chega aqui às 9h da manhã e sai às 9h da noite, atrás de negócios. Banco é um bicho tão complexo hoje que, se colocar alguém que não tem a menor aderência no que faz, não roda. O Maguito tem um passado político que agrega muito. As folhas (de pagamento de servidores de Minas Gerais, da Bahia e do Maranhão) que conseguimos foi trabalho dele. Ele não é um encosto. O negócio de mercado de governo está cada vez mais concorrido. A diferença é o cara que sabe conversar. Não existe vida mole no BB.