Título: Em clima eleitoral, ataques à oposição
Autor: Braga, Isabel; Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 12/03/2008, O País, p. 3
Durante inauguração de obra do PAC, Lula diz que adversários só pensam na sucessão presidencial
DIANÓPOLIS (TO). Num evento com ar de campanha - com discursos inflamados, transporte gratuito e distribuição de comida -, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, na inauguração do projeto de irrigação Manuel Alves, uma obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que seus adversários só pensam na sucessão presidencial de 2010. Falando para um público humilde, em boa parte formado por trabalhadores rurais, defendeu seu principal programa social - o Bolsa Família. Também enalteceu os pobres e disse que seu governo não discrimina os adversários.
- É assim que funciona a cabeça de algumas pessoas no Brasil: só pensam naquilo, só pensam naquilo, só pensam naquilo. Enquanto o Marcelo e eu temos que pensar não em 2010, mas em agora. Em como o povo vai comer, como o povo vai beber, como o povo vai morar - disse Lula que, ao lado do governador do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), entregou lotes a produtores rurais beneficiados pelo projeto.
Para o presidente, a lógica da oposição ao derrotar a CPMF (o chamado imposto do cheque) foi tirar de seu governo R$120 bilhões até o final do mandato, em 2010, para tentar enfraquecê-lo na sucessão presidencial. Lula afirmou que, mesmo com a derrota, não vai desistir dos projetos como o de levar o Saúde da Família para as escolas. Ele prometeu lançar esse programa em abril e disse que o dinheiro para bancá-lo "vai aparecer". Pelo menos R$24 bilhões da CPMF seriam aplicados no chamado PAC da Saúde, que inclui a contratação de médicos para as escolas.
- Eles pensam que o Lula vai ficar chorando. Quem nasceu em Garanhuns e não morreu de fome até os 5 anos de idade não vai morrer no caminho, porque a oposição quer criar dificuldades. Quem perdeu três eleições e não desistiu não vai se perder porque não foi aprovada a CPMF.
Numa reação às críticas de que seus programas são eleitoreiros e privilegiam aliados, Lula disse que não discrimina governadores de oposição. E citou, um a um, os governadores tucanos - José Serra (SP), Aécio Neves (MG), Yeda Crusius (RS), Cássio Cunha Lima (PB) e Teotonio Vilela Filho (AL) -, e o governador do DEM, José Roberto Arruda (DF), sugerindo:
- Perguntem (a eles) se estamos fazendo um milímetro de discriminação. Não tem importância se eles derrubaram a CPMF.
Num palanque com 22 prefeitos da região, beneficiários do projeto de irrigação, deputados, senadores, secretários estaduais, o governador e o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, Lula ouviu elogios até de prefeito do DEM: Adeljon Nepomuceno de Carvalho, de Porto Alegre (TO), defendeu sua permanência no poder:
- Quatro anos é muito tempo para um péssimo governo, mas oito anos é muito pouco para um governo da altura do seu. Seria bom que o senhor pudesse continuar à frente do país por mais um mandato. Aí não teríamos mais desigualdades sociais - disse o prefeito.
Também ouviu Geddel dizer que suas visitas aos estados não têm conotação eleitoral, porque as pessoas "não se vendem por meia pataca de favor". Mas a maior parte das pessoas chegou ao local do evento - a cerca de 20 quilômetros do centro de Dianópolis - em ônibus gratuitos oferecidos pelo poder público. E muitos esperaram até as 15h para receber uma quentinha com arroz, feijão tropeiro, mandioca e carne de sol.
Um pouco antes, ao visitar a barragem do Rio Manuel Alves, o presidente surpreendeu a sua segurança: passou pelo meio de uma grade e desceu um barranco de quase dez metros para ver mais de perto o sistema de vazão da água. No caminho irregular e molhado pela chuva, escorregou, mas não caiu.
- Vocês sempre querendo derrubar o presidente, mas ele está firme como uma rocha - brincou Geddel, dirigindo-se aos jornalistas.