Título: Débito ampliado
Autor: Nunes, Vicente
Fonte: Correio Braziliense, 01/05/2009, Economia, p. 10

Enquanto o superávit primário caiu 51% no primeiro trimestre do ano, a dívida pública deu um salto de R$ 28,5 bilhões no período. O impacto dessa equação foi a deterioração de um dos principais indicadores analisados pelos investidores para avaliar a saúde do país: a relação entre o endividamento do governo e o Produto Interno Bruto (PIB). Em dezembro do ano passado, o índice estava em 36%. Em março, havia atingido 37,6%, ou seja, um aumento de 1,6 ponto percentual em apenas três meses.

Na avaliação do chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, a piora na relação entre a dívida e o PIB foi registrada basicamente em março, devido à alta de 2,66% do real frente ao dólar. Como o Brasil é credor em moeda estrangeira, quando o real se valoriza a conta de juros cresce e a relação entre a dívida e o PIB vai na mesma direção, se o superávit não for suficiente para cobrir a diferença. ¿E, somente em março, a valorização do real resultou em um aumento de R$ 10,3 bilhões na dívida, ou 0,5% do PIB¿, afirmou Altamir.

O impacto da recuperação do real frente ao dólar também ficou visível na conta de juros. Em março, as despesas com a dívida totalizaram R$ 14,1 bilhões, valor sem precedente para tal mês desde que o BC passou a fazer esse levantamento em 1991. Com essa carga de juros tão elevada, mesmo o setor público tendo feito uma economia de R$ 11,6 bilhões para pagar a conta da dívida, ainda faltou dinheiro: mais precisamente R$ 2,5 bilhões, o maior déficit nominal desde março de 2007.

¿A tendência é de que a carga de juros vá diminuindo à medida que a taxa básica (Selic) caia¿, ressaltou Altamir. De qualquer forma, ele já avisou que a relação entre a dívida e o PIB fechará abril com nova elevação, de 36,7% para 36,8%. ¿A queda da Selic ¿ que começou em janeiro ¿ deverá ser observada com maior ímpeto a partir de maio¿, acrescentou. Para o economista-chefe da Máxima Asset Management, George Bezerra, tudo indica que, mesmo com a queda dos juros, a dívida pública fechará o ano correspondendo a mais de 40% do PIB.

Pelas contas do Ministério do Planejamento, apenas a retirada da Petrobras do cálculo do superávit primário fará com que a relação entre a dívida e o PIB salte para 39,4%. ¿Mas isso já está precificado pelo mercado. Mesmo em alta, esse indicador não preocupa. Hoje, não há mais qualquer questionamento quando à solvência do país. O Brasil já consolidou sua imagem de bom pagador entre os investidores¿, disse Zeina Latif, economista-chefe do Banco ING. (VN)