Título: Equipe econômica vê efeitos da crise dos EUA
Autor: Paul, Gustavo; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 13/03/2008, Economia, p. 33
PIBÃO EM DIA DE PACOTINHO: Para economista, Brasil está "relativamente protegido" por ter mercado doméstico forte
BC estima que recessão americana fará PIB brasileiro perder até 0,6 ponto este ano. Mantega projeta expansão de 5%
BRASÍLIA. A equipe econômica já admite que o agravamento da crise americana afetará o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, mas não o suficiente para atrapalhar a trajetória de crescimento sustentado. Segundo fontes, o Banco Central (BC) apresentou estimativa de uma queda de no máximo 0,6 ponto percentual do PIB, causada pela recessão americana e, por tabela, a redução das exportações brasileiras tanto aos EUA como a terceiros mercados.
Este percentual é pequeno, afirmam os técnicos, se for levada em conta a projeção entre 4,5% e 5% de expansão da atividade econômica em 2008. Outro fator que tende a evitar uma recessão mais profunda, disse um importante membro da equipe econômica, são as eleições americanas. Tanto democratas quanto republicanos não querem passar a imagem de um país cuja economia poderá afundar.
- Vivemos uma crise internacional de grande magnitude. Pode ser que isso afete um pouco a aceleração do crescimento. Então, preferimos trabalhar com uma previsão de 5% para 2008, tendo em vista que existe esse fator que traz alguma intranqüilidade dentro do cenário econômico. Se não houvesse essa crise, eu poderia afirmar que vamos continuar acelerando, mas com a crise, 5% está de bom tamanho - disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Segundo ele, a demanda interna ainda é o principal motor do crescimento e poderá minimizar os efeitos de uma redução na expansão mundial.
Bradesco: ainda é impossível avaliar tamanho da crise
Para o economista-chefe do banco WestLB, Roberto Padovani, a projeção feita pelo BC relativa a um impacto negativo de até 0,6 ponto percentual do PIB é "perfeitamente factível", levando em conta, que nos EUA, a estimativa é de uma queda de um ponto percentual do PIB americano. Ele destacou que, nessa conta, também é preciso considerar que as exportações brasileiras para aquele mercado correspondem a 15% do total.
- Onde vai impactar mesmo é no comércio. De qualquer forma, o Brasil está relativamente protegido. Tem um mercado consumidor doméstico forte - disse Padovani.
Já o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, lembrou que, com o crescimento de 6,6% das exportações e de 20,5% das importações, a contribuição do comércio exterior no PIB foi negativa. Ele acha que o mesmo ocorrerá em 2008, se houver mudança no cenário internacional em relação às commodities, que estão com as cotações bastante elevadas.
- Existe a bolha das commodities, que deixaram de ser comerciais, passando a financeiras - disse Castro.
Para o economista-chefe para América Latina do ABN Amro, Alexandre Schwartsman, se o comércio mundial recuar cerca de 2% este ano, poderá haver um impacto negativo entre 0,30 e 0,35 ponto percentual no ritmo do PIB nacional.
- A economia brasileira é ainda muito fechada. Exportamos o equivalente a 15% do PIB - afirmou.
Para o governo e especialistas do mercado, a demanda interna ainda é o principal motor do crescimento e, portanto, poderá minimizar os efeitos de uma possível redução na expansão mundial. O peso do comércio externo na economia está menor neste momento e o Brasil tem fundamentos econômicos mais sólidos, como relação dívida/PIB em declínio e superávits primários.
Mas, na avaliação do Departamento Econômico do Bradesco, ainda é impossível avaliar o tamanho da crise, e quanto tempo ela vai durar.