Título: Condoleezza: fronteira não é refúgio do terror
Autor: Oliveira, Eliane; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 14/03/2008, O Mundo, p. 29

No Brasil, secretária de Estado dos EUA cobra de países compromisso para impedir que Farc usem territórios.

BRASÍLIA, SALVADOR e WASHINGTON. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, defendeu ontem, indiretamente, a ação de tropas colombianas no Equador que resultou na morte de vários guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Após se reunir, no Palácio do Planalto e no Itamaraty, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ela disse que o governo de seu país continua preocupado com a situação na região e cobrou dos países sul-americanos o compromisso de impedir que as Farc usem seus territórios.

- As fronteiras não podem ser usadas como esconderijo para terroristas que depois vão matar civis inocentes - disse ela, acrescentando que o terrorismo preocupa os EUA.

Condoleezza elogiou a atuação do Brasil na busca de uma solução pacífica para a crise.

- Os EUA apreciam os esforços para promover a reconciliação e para reduzir as tensões. Os países não podem ser ameaçados nem de dentro nem de fora - disse.

Secretária defende sucesso do Plano Colômbia

Ao lado de Amorim, Condoleezza disse que os países sul-americanos deveriam criar um sistema de segurança capaz de cobrir todas as fronteiras. Ela acrescentou que os EUA "estão orgulhosos" de terem ajudado a Colômbia a impor a lei e a ordem no país com o Plano Colômbia.

- Os EUA têm orgulho de serem parceiros da Colômbia e ajudar o país a encontrar os meios de proteger seus cidadãos contra o narcotráfico e os narcoterroristas. Os EUA classificam as Farc como uma organização terrorista porque elas mataram muitos colombianos inocentes - afirmou.

Ela disse apoiar a proposta brasileira de se criar um Conselho Sul-Americano de Defesa e elogiou a atuação do Brasil na resolução do conflito envolvendo Colômbia e Equador.

- Confiamos na liderança brasileira - afirmou.

A criação do conselho, aliás, foi um dos principais temas da conversa que Condoleezza teve com Lula. O presidente fez uma explanação sobre o assunto, deixando claro que, para o governo brasileiro, um fórum sul-americano teria mais força do que a própria Organização dos Estados Americanos (OEA), organismo que tem os EUA como membro.

Já no encontro entre ela e Amorim, o ministro fez questão de explicar a posição do Brasil de, embora repudiar o terrorismo, não classificar as Farc como tal. Isto porque, explicou Amorim, a diplomacia brasileira segue, por princípio, as orientações das Nações Unidas.

Apesar da atuação elogiada do Brasil no conflito, a secretária americana desconversou ao ser perguntada se os brasileiros estariam finalmente credenciados a ocupar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Condoleezza destacou o trabalho do Brasil no Haiti, na América do Sul , mas reafirmou o apoio dos EUA ao Japão:

- Os EUA estão abertos a discussões em torno da reforma do Conselho de Segurança. Estamos consultando o Brasil e outros países - disse ela

Condoleezza saiu de Brasília ontem à tarde e seguiu para Salvador, onde passou a noite, antes de seguir para o Chile. A Argentina não foi incluída no roteiro. Em Salvador, ela jantou com o governador baiano, Jaques Wagner e aproveitou o clima de descontração para tocar pandeiro e dançar ao lado do ministro da Cultura Gilberto Gil.

- Nós baianos somos desmontantes - disse Jaques Wagner ao observar Condoleezza dançando.

Em Washington, o comandante americano para a América Latina e o Caribe, o almirante Jim Stavridis, criticou a corrida armamentista da Venezuela. Segundo ele, as compras de aviões, helicópteros, fuzis e outros materiais bélicos pelo governo de Hugo Chávez provocam tensão numa região que tem sido capaz de evitar conflitos armados.

- Pessoalmente tenho dificuldade em compreender por que a Venezuela precisa de tantas armas - disse ele a um comitê da Câmara de Representantes.

Com agências internacionais

* Enviado especial