Título: O modelo francês é o ideal
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 16/03/2008, O Mundo, p. 35
ISTAMBUL. A professora e cientista política da Universidade do Bósforo Binnaz Toprak aceita o argumento de que o véu é um direito da parcela religiosa entre o corpo estudantil.
A senhora tolera mas não concorda com o véu, é isso?
BINNAZ TOPRAK: Veja bem, não estou discutindo o direito de mulheres adultas vestirem o que quiserem, mas não acho que o véu deveria ser liberado de forma universal. O modelo francês, em que estudantes e servidoras públicas não podem usar símbolos religiosos é o ideal.
É compreensível a polêmica?
TOPRAK: Muita gente ficou nervosa com a ascensão do partido islâmico AKP nas eleições de 2007, e também entendo que os defensores do secularismo queixem-se do véu porque ele é visto como um sinal de inferioridade para mulheres em determinados países muçulmanos. Mas a Turquia tem problemas mais sérios do que este em termos de democracia e direitos humanos, que não estão sendo abordados pelo governo.
Que problemas?
TOPRAK: Ouço casos de funcionários públicos que estão perdendo espaço em promoções porque não são religiosos ou porque suas mulheres não usam véus. E embora sejamos um bom exemplo de país muçulmano, temos uma lei que resulta em processos sumários contra pessoas que ousem criticar o governo, com vários intelectuais postos atrás das grades. E se há tanta preocupação com liberdades, por que não garantir mais direitos para a minoria curda?
Um dos artigos escritos pela senhora recentemente fala numa espécie de ressaca pós-véu...
TOPRAK: Sim, pois fico imaginando o que essas meninas vão fazer quando se formarem, uma vez que há várias instâncias na sociedade turca em que o uso do véu continua proibido. Daqui a pouco veremos o governo querendo criar algum tipo de ação afirmativa, ou algum sistema de cotas. Isso só fará dividir mais do que integrar.(Fernando Duarte)