Título: Um véu entre duas Turquias
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 16/03/2008, O Mundo, p. 35

Uso de vestimenta em universidades divide país entre medo de fanatismo e desejo de integração.

N. anda rápido, deslizando em meio à densa multidão que entope a praça de Taksim, no centro de Istambul, como se tentasse despistar alguém. Faz parte de uma rotina de precaução, em que anonimato e discrição em locais públicos se tornaram fundamentais para a ativista política. Ela está envolvida com a causa armênia, num país em que até críticas leves ao genocídio de armênios pela Turquia, no início do século XX, podem ser punidas. Nos últimos meses, N. aumentou ainda mais seus cuidados com segurança, ao se ver envolvida numa das discussões mais polêmicas no cabo-de-guerra entre religião e secularismo no país: o fim da proibição do uso do véu em instituições de ensino superior.

O veto constitucional ao uso do símbolo religioso muçulmano foi instituído em 1997 com a derrocada do governo de Necmettin Erbakan, que renunciou sob enorme pressão de militares, acusado de alimentar o fundamentalismo religioso. Erbakan foi o primeiro premier de orientação islâmica a ousar expressar opiniões contrárias à política pró-Ocidente característica da formação do republicanismo turco.

Medo de discriminação

A revogação da lei que proibia o uso do véu era uma causa antiga entre os setores mais religiosos da sociedade, e ganhou ainda mais força depois da vitória arrasadora do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) ¿ principal partido islamista turco) ¿ na eleição geral de setembro de 2007, quando conquistou 62% das 550 cadeiras do Parlamento. A derrubada do veto ao uso do véu também teve o importante apoio do Partido do Movimento Nacionalista (MHP), legenda nacionalista com uma agenda mais liberal, que enxergou na autorização do uso do véu algo mais que uma discussão religiosa: uma questão de direitos humanos. Algo que N. não cansa de repetir, quando conversa com colegas e professores do curso de sociologia, numa universidades de Istambul em que os ânimos estão acirrados.

¿ Sou de uma universidade nacionalista e ouço muita gente dizer que o véu nas universidades é uma concessão ao radicalismo islâmico. Há professores que ameaçam se recusar a sequer dirigir a palavra a estudantes usando o véu. Tenho medo de que a patrulha ideológica faça com que as meninas sejam tratadas de maneira agressiva ou que elas sejam marginalizadas no campus ¿ diz ela.

E, entre a população turca, não é difícil encontrar quem veja no véu a ponta de um iceberg de fanatismo religioso, ainda mais diante do exemplo dado pelo vizinho Irã pós-1979. A Revolução Islâmica iraniana é sempre citada pelos defensores do secularismo que formou a base do movimento republicano turco ¿ depois de expulsar tropas aliadas que haviam ocupado o país após a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra, a Turquia declarou-se república em outubro de 1923, pondo fim a mais de 600 anos de monarquia islâmica.

¿ Misturar religião com política é perigoso. Seria muito mais fácil se as estudantes religiosas aceitassem a simples condição de não usar o véu no campus, ainda mais num momento em que todo mundo está mais agitado com a ascensão do AKP ¿ diz Sayat Oskan, estudante de economia da Universidade de Galatasaray, também em Istambul.

Risco para a educação feminina

Porém, como explica Alev Adil, escritora turca que também trabalha no Departamento de Estudos Culturais da Universidade de Greenwich, em Londres, há um paradoxo, pois homens muçulmanos podem freqüentar instituições de ensino superior turcas usando barbas compridas ou ornamentos islâmicos. Sem falar que o veto ao véu tem o efeito colateral de impedir em muitos casos o acesso feminino à educação universitária.

¿ Num momento em que a Turquia se vê diante da necessidade de integrar secularistas e religiosos, negar às meninas muçulmanas o direito à educação não ajudaria em coisa alguma.

Adil fala também numa questão mais complexa: o surgimento de uma classe média religiosa, em decorrência do desenvolvimento econômico de áreas fora do eixo Istambul-Ancara, tradicionalmente menos secularista:

¿ Mulheres de véu fazem parte de uma sociedade menos secular, mas não menos moderna. Tanto que muitas dessas mulheres usam véus de grife, comprados em lojas de departamentos chiques da Turquia. Há 30 anos, por exemplo, o véu era muito mais usado pelas classes trabalhadoras, mas o que estava na cabeça das serventes agora adorna as madames.

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