Título: Tibete em chamas
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 15/03/2008, O Mundo, p. 41
Na maior onda de protestos em 20 anos, carros e lojas são queimados e governo reage duramente.
Cerca de mil moradores de Lhasa, a capital do Tibete, ocuparam as principais ruas da cidade ontem em apoio aos mais de mil monges budistas que desde o início da semana vêm fazendo manifestações contra a repressão chinesa. Os protestos deixaram lojas e carros incendiados, inclusive da polícia. Houve prisões e muitas pessoas foram feridas após enfrentarem com paus e pedras as forças de segurança, que reagiram com tiros, cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. Segundo a Rádio Ásia Livre, pelo menos dois manifestantes teriam morrido.
O governo chinês enviou soldados para tentar conter a maior onda de protestos na região em duas décadas, e que acontecem a cinco meses das Olimpíadas de Pequim. O alvo da destruição foram lojas, prédios e carros de chineses, a maioria na região do mercado Barkhor, em frente a um dos templos mais importantes da capital, o Jokhang, e próximo ao Palácio Potala, antiga residência do líder espiritual dos tibetanos, Dalai Lama. Cinco templos de Lhasa estão cercados por soldados e muitos monges iniciaram greve de fome contra a brutalidade das forças de segurança. Dois tentaram suicídio e estão em estado grave.
As manifestações se seguem aos protestos iniciados segunda-feira por monges budistas em Tibete, Índia e Nepal. Monges de templos em outras províncias chinesas, como Qinghai e Gansu, também se uniram ao protesto. Os monastérios ocupados estão fechados e os monges, isolados.
¿ Manifestações pacíficas são protegidas por leis internacionais e locais e elas devem ser autorizadas, não violentamente reprimidas ¿ diz Sophie Richardson, diretora para a Ásia da Human Rights Watch.
Governo chinês acusa Dalai Lama
Nenhuma notícia sobre o levante é veiculada na mídia estatal chinesa, e o Ministério das Relações Exteriores afirma que a situação em Lhasa está sob controle. Segundo a Campanha Internacional para o Tibete, o número de mortos varia de dois a 13. Já a Rádio Ásia Livre citou testemunhas que viram policiais dispararem contra manifestantes, matando dois. O número de presos chegaria a centenas, e as autoridades estariam se preparando para decretar estado de emergência.
O governo chinês acusa o Dalai Lama de fomentar os protestos do seu exílio em Dharamshala, na Índia. Esta é a maior onda de manifestações no Tibete desde 1989, quando Pequim decretou lei marcial na região após protestos contra a repressão chinesa. Um porta-voz do Dalai Lama rebateu as acusações, e o próprio líder religioso pediu que a China renuncie ao uso da força contra as manifestações.
¿ Os protestos são uma manifestação de profundo ressentimento do povo tibetano. Peço aos líderes chineses que parem de usar a força e acabem com este ressentimento por meio do diálogo ¿ disse o Dalai Lama.
A comunidade internacional, especialmente EUA e União Européia, pediu à China moderação. A comissária para Direitos Humanos da ONU, Louise Arbour, pediu a Pequim que permita aos manifestantes ¿exercitarem seu direito à liberdade de expressão¿ e evitar ¿o uso excessivo da força¿.
A China invadiu o Tibete em 1950. As manifestações dos monges começaram na segunda-feira, aniversário do levante popular e religioso que, em 10 de março de 1959, tentou decretar a independência do Tibete. Centenas de monges do monastério Drepung marcharam por Lhasa, pedindo o fim das restrições religiosas e a liberdade dos monges presos. A polícia dispersou-os com cassetetes e gás lacrimogêneo, prendendo 50. Na terça, foi a vez de 500 monges do monastério Sera. Mais de 20 foram presos. O mosteiro foi isolado. Fora da região, 400 monges de Amdo, onde fica o monastério Lutsang, e 100 do monastério Myera, em Gansu, entraram em choque com a polícia.
Os protestos se estenderam por regiões vizinhas. Na Índia, cerca de dez exilados foram detidos ao tentar invadir a embaixada chinesa ontem. No Nepal, a polícia reprimiu centenas de manifestantes em Katmandu.
¿ O que me surpreende é o uso da força em protestos semelhantes em Índia e Nepal. Nos perguntamos até onde a China está pressionando seus vizinhos para silenciar os tibetanos ¿ diz Sophie Richardson.
Com agências internacionais
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