Título: Pacientes com sintomas lotam hospitais
Autor: Costa, Célia
Fonte: O Globo, 19/03/2008, Rio, p. 12
Só no Albert Schweitzer tempo de espera dobra para 3 horas, devido ao aumento da procura
Enquanto autoridades e especialistas discutem se o Rio enfrenta ou não uma epidemia, a população vive um martírio em busca de atendimento nos hospitais públicos e lota os particulares. A chefe de plantão do Albert Schweitzer, Ivone Segade, afirma que o hospital estadual vem recebendo 28 pacientes com dengue por dia, sem contar os que voltam à unidade para fazer o acompanhamento. O aumento da demanda fez com que o tempo de espera dobrasse para três horas. Em janeiro o hospital confirmou 40 casos e em fevereiro, 400. A unidade já tem enfermarias exclusivas para a dengue: a adulta com 27 leitos e a pediátrica, com 11. Todos ocupados.
No Hospital municipal Salgado Filho (Méier), os leitos de duas salas - um dos setores de repouso da emergência e a enfermaria ginecológica - foram desocupados ontem para abrigar 52 crianças e adolescentes com dengue. Segundo a presidente do Cremerj, Márcia Rosa de Araújo, "estão descobrindo um santo para vestir outro", já que os pacientes mandados para casa podem piorar. Na fila, mães reclamavam da demora do atendimento. A dona-de-casa Aline da Silva, de 23 anos, não conseguiu saber se o filho Luiz Fernando, de 1 ano e 6 meses, está com dengue. Mesmo com febre alta, diarréia e vômito, segundo Aline, a pediatra que atendeu o menino não pediu exame de sangue.
- A médica mandou que eu voltasse daqui a quatro dias, mas fico preocupada. Tem muita criança com dengue - disse Aline.
A dona-de-casa Maria Cristina de Oliveira, de 41, mãe de Hosana, de 10, saiu de casa em Belford Roxo e chegou ao Hospital municipal Jesus, em Vila Isabel, às 5h40m. Com dor de cabeça e febre, a menina mal conseguia ficar de pé.
- Levei minha filha num posto perto da minha casa. Os médicos mandaram que eu esperasse de cinco a seis dias para fazer o exame de sangue - contou Maria.
Até descobrir que a filha Fernanda, de 11, estava com dengue, a dona-de-casa Mauricéia Fernandes passou por um suplício. Na semana passada, a menina foi atendida no Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, com febre alta, vômito e dores no corpo. Segundo Mauricéia, os médicos disseram que Fernanda estava com problemas na garganta e passaram uma injeção, além de remédios.
- Minha filha não melhorou e voltei com ela para o posto. Lá o exame de sangue acusou a dengue. Isso tudo poderia ter sido evitado se o hospital tivesse feito o exame de sangue - lamenta Mauricéia, que mora em Vigário Geral.
A aposentada Romilda Severino Vicente, de 60, passou seis dias no HGV e teve alta domingo. Ela conta que na mesma enfermaria outras oito pessoas estavam internadas com dengue.
Apesar de ser uma unidade de alta complexidade, o número de pessoas com dengue que procuram o Hospital Geral de Bonsucesso (federal), tem crescido: foram 3.165 casos em janeiro, 4.682 em fevereiro e março já conta com 3.224. Muitos dos pacientes não são do Rio, como Maria José Lacerda, de Belford Roxo:
- Vim para cá porque o posto de saúde perto de casa só entrega os exames em um mês.
A Secretaria municipal de Saúde informou que suas unidades estão se organizando para receber todos os pacientes que precisam de internação. A secretaria estadual admitiu que trabalha com as unidades superlotadas, mas negou que os pacientes encontrem dificuldades para fazer exame de sangue.
A rede particular também tem se desdobrado para dar conta da crescente procura por leitos e atendimentos de emergência, que aumentaram 150%.
- Aumentamos o número de médicos, de enfermeiros e de profissionais do laboratório para agilizar os exames de hemograma e sorologia - afirma José Roberto Murad, diretor-médico do Hospital Balbino, em Olaria.
No Hospital Memorial, no Engenho de Dentro, suítes foram transformadas em enfermarias. A versão hemorrágica da doença, que é mais grave, representa 20% dos casos no Hospital Badim, da Rede D"Or, na Tijuca. Por lá, os profissionais receberam um treinamento especial para lidar com casos de dengue.