Título: Dengue a 45 casos por hora
Autor: Costa, Célia
Fonte: O Globo, 19/03/2008, Rio, p. 12
Prefeitura nega, mas especialista garante que cidade já tem epidemia desde janeiro
Apesar de a Secretaria municipal de Saúde negar e de o prefeito Cesar Maia agora dizer que o pior já passou, o Rio vive uma epidemia de dengue desde janeiro, segundo Roberto Medronho, do Núcleo de Saúde Coletiva da UFRJ, um dos maiores especialistas na doença do país. Num estudo feito para O GLOBO, o epidemiologista analisou a incidência da doença nos últimos dez anos e contestou os parâmetros usados pela prefeitura para sustentar que a doença está sob controle.
Em apenas um dia, foram confirmados mais 1.100 casos de dengue no município, o que dá 45 casos por hora. O número supera a média diária dos últimos dias, que tem ficado em 900. De acordo com os números oficiais divulgados ontem, de janeiro até agora 20.269 pessoas ficaram doentes em decorrência da dengue e 28 pessoas morreram na capital.
A Secretaria municipal de Saúde, no entanto, ainda negava ontem que a cidade esteja enfrentando uma epidemia. Numa em entrevista à Rádio Globo, o prefeito Cesar Maia disse à tarde que "já houve uma epidemia e que sempre que um óbito é informado, ele se refere a 40 dias ou 30 dias atrás, porque há necessidade de exames laboratoriais".
- O momento hoje é de declínio - afirmou o prefeito.
Epidemiologista contesta índices
Mas para Roberto Medronho, que é professor de epidemiologia e fez mestrado em dengue, do ponto de vista técnico os índices divulgados pela prefeitura estão equivocados. De acordo com o site da Secretaria municipal de Saúde, para que seja considerada uma epidemia, a incidência de casos deve ser de 470 por cem mil habitantes, que é a média dos anos epidêmicos. No entanto, segundo Medronho, isso contraria determinação da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e a Organização Mundial de Saúde (OMS). O cálculo deve ser feito com base numa série histórica, excluindo-se os anos em que houve epidemias.
- Se contabilizar os anos epidêmicos, nunca mais haverá uma epidemia de dengue no Rio. Não podemos ter como parâmetro um ano como 2002, quando foram registrados 138.027 casos - explica Medronho. - Não existe uma taxa de incidência determinada. Cada local deve analisar a sua base histórica.
Ao calcular a incidência de casos nos últimos dez anos e excluir os períodos de epidemia, o especialista concluiu que o quadro da dengue no Rio é grave desde janeiro. Usando o Limite Máximo Esperado (LME), parâmetro adotado internacionalmente, só no mês de janeiro o máximo de casos esperados seria de 23,3 por cem mil habitantes. No entanto, conforme levantamento da prefeitura, o índice foi de 144,5 - seis vezes mais. Em fevereiro, o esperado era de 42,95 casos e o registrado, 158,2. Em março, o esperado era de 75. Entretanto, ainda em meados do mês, a taxa já é de 43,3.
- A minha análise é feita com padrões epidemiológicos, sem nenhum juízo de valor. Mas acho importante revelar quando uma epidemia está realmente configurada, porque mostra que é preciso intensificar ações e usar todos os mecanismos disponíveis para o combate ao mosquito Aedes aegypti - diz Medronho.
Ainda segundo o site da secretaria, a média das taxas de incidência em anos não epidêmicos é de 27 casos por cem mil habitantes. Se levar em conta que este deveria ser o parâmetro usado, conforme o epidemiologista, a situação atual é alarmante: a incidência este ano é de 346 casos por cem mil habitantes.
Desde o início do ano, quando o número de casos de dengue aumentou, a prefeitura vem negando epidemia. Conforme o site da secretaria, os bairros de Saúde, Santo Cristo, Bonsucesso, Jacaré e as localidades de Gardênia Azul, Curicica e Camorim, em Jacarepaguá, enfrentam surtos. Cesar Maia também citou a taxa que, segundo ele, é usada pela secretaria para definir epidemia.
- Epidemia é quando se chega a um ponto em que o número de casos supera 300 por cem mil habitantes - disse o prefeito na rádio.
Sem saber da análise do especialista, o Ministério da Saúde informou ontem à tarde que não tomará medidas específicas em relação à dengue no Rio. Por meio de sua assessoria, o ministério destacou que desde outubro já oferece subsídio financeiro, político e administrativo para o enfrentamento da doença no Rio. Para o ministério, as ações agora devem ser tomadas localmente, tanto pelo governo estadual quanto pela prefeitura da capital.