Título: Erros do poder público ajudam dengue a avançar
Autor: Costa, Célia; Magalhães, Luiz Ernesto
Fonte: O Globo, 19/03/2008, Rio, p. 13
Especialistas fazem críticas à inércia das autoridades
Uma cidade à beira-mar com florestas, lagoas, favelas, muitos reservatórios de água e calor o ano inteiro. O cenário pode ser perfeito para a proliferação de mosquitos como o Aedes aegypti, mas a incidência da dengue poderia ser mantida em níveis toleráveis, segundo especialistas, não fossem os erros de todas as esferas do governo na prevenção da doença.
O epidemiologista Edmilson Migowski, professor da UFRJ, é um dos que apontam falhas no modo de atuação de todos os entes públicos que agem no setor. Segundo ele, o Ministério da Saúde, por exemplo, faz campanha contra a dengue com o mesmo formato do das campanhas de vacinação, ou seja, focando no combate de um dia:
- Não pode ser assim. Vacina você toma num dia, valendo por um, dois anos. Dengue se combate todos os dias. É letra D de década. O uso do fumacê se mostrou ineficiente.
Edmilson lembra ainda que os governos federal e estadual não têm um bom sistema de monitoramento para saber se os municípios, responsáveis pelo combate ao vetor, estão fazendo bem o trabalho. Além disso, segundo ele, a prefeitura do Rio deveria admitir que está havendo uma epidemia, para ajudar a alertar a população.
Para o presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, a responsabilidade é das três esferas de poder:
- Já passamos da fase de saber se o mosquito é municipal, estadual ou federal. O combate é de todos e precisa ser contínuo, mas o poder público é negligente.
Laboratório leva mais de 3 meses para confirmar casos
O dinheiro para o combate também tem sido mal aplicado. Em 2006, segundo o Tribunal de Contas do Município, a prefeitura deixou de usar R$12 milhões na prevenção dos focos. Desse valor, metade pagou aluguel de ambulâncias e a remoção de lixo dos hospitais públicos. Além disso, apesar de ter autorização para contratar 3.700 agentes de saúde desde 2002, a prefeitura só abriu este ano 550 vagas.
O Laboratório Noel Nutels, ligado à Secretaria estadual de Saúde, demora mais de três meses para confirmar um caso. Nos municípios da Região Metropolitana, as campanhas de prevenção ficaram comprometidas no ano passado, porque agentes de saúde vieram para o Rio para evitar uma epidemia durante o Pan.
Já o entomologista Anthony Érico, da Fiocruz, diz que a favelização das encostas facilita a proliferação do Aedes. Em janeiro, o TCM divulgou um relatório mostrando que uma das falhas graves na prevenção era que o tráfico impedia a entrada dos agentes de saúde nas favelas.
- São locais onde a distribuição de água é prejudicada, o que torna o armazenamento obrigatório, a coleta de lixo não é regular e não há controle sobre os focos - analisa Érico.
Para piorar as situação, o clima do Rio, com temperatura alta durante todo o ano, faz com o que ciclo de reprodução do mosquito seja mais rápido, segundo o entomologista. Em São Paulo, compara, favelas mais planas facilitam a distribuição de água e a coleta de lixo.
- No Rio, o combate tem que ser feito o ano todo e com medidas educativas, e não apenas informativas, como hoje - avalia, lembrando que o vírus 2, que predomina este ano, está mais agressivo.