Título: Sob o signo da recessão
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Fonte: O Globo, 21/03/2008, Economia, p. 19
AMEAÇA GLOBAL
OCDE prevê crescimento zero para os EUA e FMI afirma que país está perto de retração
Dados e análises sobre a economia americana divulgados ontem por instituições como Fundo Monetário Internacional (FMI), Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Federal Reserve (Fed, o banco central americano) reforçaram o sentimento de que o país caminha rumo à recessão. Projeções negativas por parte de montadoras - General Motors, Ford e Chrysler - ajudaram a traçar um cenário pior para este ano. A GM, por exemplo, teria adiado investimentos do primeiro trimestre para o fim do ano. Já a OCDE, que reduziu a previsão de crescimento da principal economia do mundo, afirma que o trimestre de abril a julho será o primeiro desde 2001 durante o qual a economia dos EUA não crescerá.
"A economia dos EUA está essencialmente andando de lado, ou talvez esteja se contraindo abertamente", disse, em nota, Jorgen Elmeskov, diretor em exercício do departamento de economia da OCDE. "Pode ser prematuro declarar a instauração de uma recessão, mas, com o ritmo de atividade tão abaixo de seu potencial, a desaceleração se amplia com rapidez."
Segundo a OCDE, a estagnação no segundo trimestre ocorrerá após uma expansão de apenas 0,1% neste trimestre. A previsão anterior da OCDE para os EUA, realizada em dezembro, era de um crescimento de 0,3% e 0,4%, respectivamente, nos primeiros trimestres de 2008.
Estados Unidos já estão em recessão, diz instituto
Os EUA perderam postos de trabalho por dois meses consecutivos, enquanto as vendas no varejo e a produção recuam. Para estimular a economia, o Fed cortou os juros seis vezes desde setembro, quando estourou o colapso dos empréstimos imobiliários de alto risco (subprime).
O FMI considera que a economia dos EUA "continua muito fraca, certamente perto de uma possível recessão", diz um esboço do documento "Perspectivas Econômicas Mundiais" obtido pela agência italiana Ansa. Dados de órgãos americanos também são desanimadores. O Instituto Conference Board informou que seu índice de indicadores antecedentes - que prevê atividades futuras - caiu 0,3% em fevereiro, no quinto mês seguido de baixa. A última ocasião em que caiu cinco meses consecutivos foi em 2001. E, segundo o Instituto de Investigações do Ciclo Econômico (ECRI, na sigla em inglês), o país já está "inequivocadamente" em recessão. O grupo, privado, cita seu indicador semanal, que recua há nove meses: o último, da semana encerrada no dia 14 de março, caiu para 130,8, ante 132,1 na semana anterior.
- O indicador mostra uma queda pronunciada, persistente e penetrante, que é, iminentemente, sinal de recessão - afirmou Lakshman Achuthan, diretor-gerente do ECRI.
Auxílio-desemprego: 22 mil pedidos a mais
A queda do indicador se deve a movimentos desfavoráveis na maioria de seus componentes, como preços de ações, auxílio-desemprego e mercado imobiliário. Na semana passada, o número de trabalhadores que pediram auxílio-desemprego pela primeira vez saltou de 356 mil na semana anterior para 378 mil, informou ontem o governo americano. Já o número que se manteve sob o benefício cresceu para o maior nível em três anos e meio.
No front industrial, um relatório do Fed da Filadélfia mostra que a atividade no Meio-Atlântico dos EUA encolheu pelo quarto mês seguido em março, reforçando evidências de que o país já está em recessão, ainda que a taxa tenha diminuído de -24 em fevereiro para -17,4 em março. É a mais longa série negativa (que indica contração) em cinco anos.
Um dos mais importantes setores da economia americana, a indústria automobilística já sente os efeitos da situação atual. Segundo o "Wall Street Journal", as três maiores montadoras do país preparam medidas de restrição de gastos. O diário informou que a GM adiou investimentos do primeiro trimestre, para ter certeza de que terá dinheiro caso o cenário piore. Já a Ford estaria considerando opções para cortar custos, a fim de ser lucrativa até 2009. E a Chrysler teria completado as medidas que reduzirão a produção em várias fábricas.