Título: Brasil pode ter enxurrada de dólares
Autor: Rangel, Juliana
Fonte: O Globo, 21/03/2008, Economia, p. 20

Para analistas, diferença para os juros dos EUA atrairá mais investidores

SÃO PAULO. A queda acelerada dos juros nos Estados Unidos, cuja taxa básica despencou de 5,25% ao ano, em agosto de 2007, para 2,25% nesta semana, pode trazer mais problemas para o governo brasileiro conter o "derretimento" do dólar frente ao real. Com a diferença em torno de dez pontos percentuais entre os juros pagos pelos títulos brasileiros e os dos papéis do Tesouro americano, somada aos bons indicadores da economia e à percepção de baixo risco de que o Brasil desfruta atualmente, aumentam os temores entre economistas e setores da indústria de que grandes volumes de recursos externos migrem para ativos em reais quando os mercados internacionais se acalmarem, produzindo drásticos efeitos sobre o câmbio.

- Diluídos os problemas externos, a tendência é ter uma enxurrada de dinheiro no país, com pressão enorme sobre o dólar - diz o economista Luis Suzigan da LCA Consultores.

O economista e consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Gomes de Almeida, ressalta que, por ter juros tão altos, os cortes acelerados nas taxas americanas colocaram o país, e particularmente a indústria nacional, numa armadilha.

- Se a crise se resolve logo, a indústria terá prejuízos porque o dólar tende a derreter de vez. E, se não acabar tão cedo, a crise internacional igualmente fará seus estragos na indústria brasileira - pondera.

Gomes de Almeida diz que a contínua desvalorização do dólar causa problemas "muito graves" para a indústria, que está sendo atenuado pelo forte ritmo de expansão da demanda doméstica. Segundo ele, embora a situação da inflação no país hoje seja mais "nebulosa" que em anos anteriores (quando o IPCA corria com certa folga em relação ao centro da meta), a possibilidade de o BC voltar a elevar os juros básicos seria "uma insanidade" nas atuais condições.

Máquinas e equipamentos mais baratos devido ao câmbio

Roberto Padovani, estrategista de Investimentos para a América Latina do banco WestLb, concorda que a tendência do dólar é mesmo de depreciação ante o real, mas não vê riscos de uma queda acelerada ou descontrolada da moeda.

- A aceleração não deve acontecer por causa das importações crescentes, do déficit na conta de serviços e também pela política de compra de reservas do Banco Central - diz.

O economista do WestLb também não vê na continuidade da depreciação do dólar algo tão desastroso para a indústria.

- A indústria não cresce pelas exportações. Não somos grandes exportadores de bens industriais e o câmbio não prejudica o setor como um todo.

Padovani aponta o barateamento dos custos de capital (máquinas e equipamentos) e o aumento da renda, que sustenta consumo interno, como benefícios que a apreciação cambial traz à economia do país.

- Por enquanto, não tem problema, os efeitos do câmbio podem ser controlados. A questão é: até quanto essa situação é sustentável.