Título: Jobim : ajuda dos EUA é se manterem à distância
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 22/03/2008, O País, p. 12

Ministro conversa sobre o Conselho Sul-Americano de Defesa com Condoleezza e com o secretário de Defesa, Robert Gates

WASHINGTON. A exposição feita pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, nos últimos dois dias, sobre a proposta do governo brasileiro em criar o Conselho Sul-Americano de Defesa foi aparentemente bem recebida pelos Estados Unidos. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, elogiou a iniciativa dizendo que ela era importante no contexto internacional. O secretário de Defesa, Robert Gates, também acatou a idéia com simpatia, chegando a manifestar a disposição dos EUA de auxiliar nessa tarefa. Tal assistência, no entanto, foi prontamente descartada. Quando ele perguntou a Jobim como o seu país poderia ajudar o Brasil nesse processo, a resposta foi:

- Eu disse a ele que a ajuda dos EUA nesse momento seria a de assistir à distância. Nós estamos fazendo uma coisa basicamente sul-americana - contou o ministro brasileiro ontem a uma platéia de diplomatas, militares e acadêmicos no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês).

Jobim se engana e chama secretário de Bill Gates

Ao mencionar a conversa, Jobim, inadvertidamente, se equivocou ao dizer o nome do chefe do Pentágono. Ele o confundiu com o do milionário dono da Microsoft: ele o chamou de Bill Gates, em vez de Robert.

Pouco depois, em entrevista à imprensa, Jobim repetiria o diálogo de forma mais coloquial, visivelmente orgulhoso de sua atitude:

- O que eu disse ao Gates foi: "Por enquanto a colaboração que os senhores podem fazer é ficarem distanciados".

No encontro com Condoleezza, que durou 40 minutos, Jobim disse que a razão fundamental para se criar o Conselho Sul-Americano de Defesa seria a de ter um foro do continente "para falar forte" no panorama nacional. "Isoladamente seremos nada", argumentou ele.

- Mostrei a ela o que estamos fazendo. Eu evidentemente não estava pedindo licença para ela, mas dando notícias. Deixei muito claro que estamos fazendo isso por uma decisão interna nossa, e que isso é um assunto claramente sul-americano. Eu mostrei que nós temos capacidade de resolver os nossos problemas - contou Jobim.

Segundo ele, Condoleezza achou a iniciativa "extraordinariamente importante para o continente". Mais tarde, um funcionário do Departamento de Estado confirmaria que houve boa receptividade à idéia brasileira, mas sem entrar em detalhes a respeito da avaliação americana.

Na palestra no CSIS, Jobim disse que aquele conselho "não é contra ninguém, e sim uma tentativa de unificação de posições" dos países da região. O ministro afirmou, ainda, que há uma preocupação do Brasil de ter uma capacidade industrial própria na área de defesa, e de também incentivar o desenvolvimento de tal capacitação - de forma conjunta - em toda a América do Sul.

- Não podemos nos dispor a sermos compradores de equipamentos de prateleira. Não podemos depender de importações - disse ele, lembrando que o fornecimento de produtos nesse setor é, na maioria das vezes, insatisfatório, pois não é acompanhado de transferência de tecnologia.

Conflito entre Equador e Colômbia foi tema discutido

Perguntado se o Conselho, que o Brasil pretende ver criado no final deste ano, se tornaria uma realidade só se todos os países da América do Sul concordassem com a idéia, ou se seria possível fundar a entidade mesmo sem a participação de alguns deles, Jobim desconversou:

- Cada coisa no seu tempo. Vamos ver o que vai acontecer. Quando surgir o problema nós vamos examinar. Não vamos antecipar isso agora.

O recente incidente da invasão do Equador pela Colômbia, para atacar um grupo de guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) foi outro tema discutido entre Jobim e Condoleezza. O ministro reafirmou que a posição brasileira era a de "não admitir em hipótese alguma a invasão de territórios".

Segundo ele, as Farc não foram mencionadas nominalmente na conversa entre ambos:

- Nós falamos sobre as atividades que ocorrem dentro da Colômbia. Eu disse que isso é um problema em que o Brasil só pode intervir a pedido do governo colombiano. Não há hipótese de se fazer qualquer outro tipo de coisa.