Título: Eco tibetano em Taiwan
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 22/03/2008, O Mundo, p. 27
Repressão chinesa no Tibete pode influenciar eleição presidencial de hoje na ilha
Os protestos contra a opressão chinesa no Tibete e a reação violenta do governo da China conseguiram mexer com uma disputa eleitoral que até recentemente vinha sendo marcada pela previsibilidade: as eleições, hoje, para presidente de Taiwan ¿ a ilha que quer ser um país mas se encontra numa espécie de limbo diplomático existencial por pressão de Pequim, que a considera parte de seu território e a impede de ingressar como nação na ONU.
Até a última pesquisa de opinião, divulgada em 9 de março (a lei taiwanesa proíbe a divulgação de pesquisas por dez dias antes das eleições), feita pelo jornal ¿United Daily News¿, o candidato da oposição, do histórico Partido Kuomintang (Nacionalista), Ma Ying-jeou, 57 anos, seria eleito facilmente com até 30 pontos de vantagem sobre o candidato do governo, Frank Hsieh, 61 anos, do Partido Democrático Progressista (PDP). Mas, depois dos protestos no Tibete, ainda que Ma mantenha certa vantagem sobre Hsieh, a diferença caiu, segundo os analistas políticos da ilha.
¿ É só olhar para o Tibete para imaginar qual será o nosso destino ¿ advertiu Hsieh, com enorme repercussão na mídia local.
O candidato do Kuomintang, temendo perder o favoritismo nas urnas, tratou de dizer que apoiaria um boicote aos Jogos Olímpicos, caso a mão-de-ferro da China no Tibete resulte em mais mortos ou presos.
¿ Há duas pré-condições para convocar um boicote às Olimpíadas em Pequim: se os comunistas continuarem a reprimir o Tibete ou se a situação se deteriorar ¿ disse ele.
Laços econômicos devem ser reforçados
Os arroubos políticos servem para botar molho numa campanha marcada por pontos em comum. Afinal, dizem os analistas políticos asiáticos, Taiwan e a China tendem a se aproximar nos próximos anos, não importa quem seja escolhido hoje presidente pelos 17 milhões de eleitores da ilha. A razão é que tanto Ma Ying-jeou quanto Frank Hsieh têm como propostas um estreitamento das relações com Pequim, que varia somente em estilo e velocidade. Num primeiro momento, seriam reforçados os laços econômicos e turísticos. Mais tarde, viria um aquecimento na glacial relação política entre a ilha e o continente, estressada hoje por mil mísseis apontados de cada lado para as principais cidades.
¿ Na superfície, as políticas se tocam, mas na análise dos programas, percebe-se que Ma Ying-jeou ao menos não prega a independência, algo que ainda está arraigado no pensamento de Frank Hsieh. Não creio que a turbulência no Tibete tenha força para impedir que Ma ganhe o pleito, mas o avanço de Hsieh traz uma dinâmica diferente ao relacionamento com a China ¿ diz George Tsai, professor da Universidade de Cultura Chinesa de Taipé. ¿ É certo que Pequim prefere Ma Ying-jeou, e a aproximação com a China será mais rápida caso ele seja eleito.
Ainda assim, há pontos comuns. Progressistas e nacionalistas querem retomar os vôos diretos entre Taipé e Pequim, hoje limitados ao período do feriado do Festival da Primavera. A razão é de fundo econômico: estima-se que três mil turistas chineses estariam dispostos a visitar Taiwan por dia caso as barreiras fossem suspensas.
Os laços econômicos tendem a ser reforçados mais rapidamente, não importa o vencedor. Taiwan cresceu 5,7% em 2007, uma das menores taxas na Ásia, e pode se beneficiar de maior aproximação com a China.
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