Título: Na mesa do BC, faca no crédito
Autor: Oliveira, Eliane; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 27/03/2008, Economia, p. 25
Banco estuda reduzir prazo, limitar rolagem de dívida no cartão e taxar leasing com IOF
Um dos principais responsáveis pela administração do regime de metas de inflação, o Banco Central (BC) continua estudando medidas de restrição ao crédito, apesar das negativas do ministro da Fazenda, Guido Mantega, esta semana. O sinal de alerta foi dado há alguns dias, na consolidação dos números do primeiro bimestre, que apontaram um volume recorde de financiamentos para 2008. Mas a preocupação ficou ainda maior quando se tornou pública a possibilidade de o governo encurtar o prazo dos empréstimos, para inibir o consumo. Uma fonte relatou ao GLOBO que tudo vai depender do tamanho do estrago do "vazamento" da intenção - traduzido por um movimento de corrida ao crédito no mercado.
O encurtamento dos prazos, que chegam a 99 meses no caso da venda de automóveis, sempre foi a medida mais cogitada pelo BC, fonte inicial da preocupação, e pelo próprio Ministério da Fazenda. Outras formas de conter o consumo - que não estão engatilhadas, mas podem ser usadas se houver necessidade - seriam a fixação de um limite para rolagem de dívidas de cartão de crédito e a adoção de encargos maiores para operações de leasing, como o aumento do compulsório (criado este ano) ou a taxação com o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
O Brasil encerrou 2007 com mais de 430 milhões de cartões ativos, dos quais 201 milhões de débito, 142 milhões emitidos por lojas e redes e 93 milhões de crédito. Juntos, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), eles financiaram ou pagaram R$310,6 bilhões, uma expansão de 22% sobre 2006.
Já as operações de leasing para compra de veículos correspondiam, em fevereiro, ao dobro do que foi registrado no mesmo mês de 2007: R$71,824 bilhões. O leasing é um tipo de aluguel de um bem. Trata-se de um sistema relativamente barato, porque o ativo só passa definitivamente às mãos do consumidor quando todas as prestações são quitadas.
Segundo uma fonte da área econômica, o governo não pode simplesmente proibir os bancos de emprestar, o que causaria problemas irreparáveis à imagem do Brasil. O caminho mais fácil seria reduzir o prazo dos financiamentos, que poderia ocorrer por decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN).
Há dois cenários considerados preocupantes pelo BC a partir do "vazamento". O primeiro diz respeito à possibilidade de corrida aos empréstimos, diante da ameaça de restrição. O segundo, não menos importante, são as pressões sobre a área econômica: da área desenvolvimentista do governo ao setor produtivo; da oposição ao Palácio do Planalto; dos bancos privados às instituições federais, como Banco do Brasil (BB) - grande emprestador, que não quer sofrer limitação para não ficar em desvantagem em relação à concorrência.
Os bancos federais, aliás, seriam os primeiros alvos da redução do prazo, antes do "vazamento", segundo essa fonte. Agora, se a situação realmente piorar e comprometer a meta de inflação, de 4,5% este ano, o mais provável é que as medidas atinjam todo o mercado financeiro. Uma reunião com o comando do BB e da Caixa Econômica Federal estava marcada para ontem, com a presença de três diretores do BC: Alexandre Tombini, na presidência interina; Mário Mesquita e Mário Torós. Mas, oficialmente, ela foi remarcada para a próxima semana.
Outra fonte do Ministério da Fazenda explicou que, para evitar medidas impositivas, Mantega tentará convencer bancos e representantes de setores mais aquecidos a agirem com cautela, para evitar uma explosão do consumo. O ministro tentará ainda evitar a corrida ao crédito.
Bancos: crédito longo é residual
A batalha começou ontem, quando Mantega, acompanhado de Tombini, Mesquita e Torós, reuniu-se com o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Fabio Barbosa, e os dirigentes de Bradesco (Marcio Cypriano), Unibanco (Pedro Moreira Salles), Itaú (Roberto Setubal) e BB (Antonio Lima Neto).
Mantega manifestou preocupação com os financiamentos de longo prazo e quis saber se esse tipo de contrato tem sustentabilidade e não pode causar danos aos consumidores. Os bancos informaram que esses empréstimos têm pouca representatividade e lembraram que o setor tem sido fundamental para a expansão da atividade econômica.
- O que às vezes existe são situações eventuais de uma posição um pouquinho mais alongada, mas são residuais. A maior parte do crédito é feita de forma muito sólida e de forma a suportar o crescimento, seja do consumo, seja do investimento, de uma forma bastante positiva - disse Barbosa.
Segundo ele, a reunião "foi tranqüilizadora para mostrar que o setor financeiro pode dar continuidade a esse ritmo de crescimento" do crédito e "tem se ajustado de maneira muito boa". Barbosa afirmou que não há necessidade de ajuste. Mantega continuará discutindo crédito e ampliação da produção com outros segmentos da economia. Hoje, ele terá um encontro com o setor automotivo, e amanhã, com o de siderurgia.