Título: Aumenta pressão sobre Hillary
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 28/03/2008, O Mundo, p. 36

Democratas temem que insistência de senadora em continuar campanha leve partido à derrota

Apesar de diminuírem a cada dia suas chances de vir a ser escolhida candidata do Partido Democrata à Casa Branca, a senadora Hillary Clinton não desiste. Ela insiste. Teima em permanecer na disputa. E o faz de forma tão feroz ¿ atacando com ardor ferino seu concorrente, o senador Barack Obama ¿ que a direção do partido começa a temer o pior: contemplar seu próprio apocalipse, vindo a ser implodido por uma vitória do senador republicano John McCain em novembro próximo.

Hillary repetiu ontem o que dissera em entrevista à revista ¿Time¿ desta semana: continuará em campanha por mais três meses. Ou seja, até o fim das primárias, a despeito das estimativas de que Obama continuará mantendo sua vantagem nas dez prévias eleitorais que ainda faltam.

¿ Eu ouço falarem muito que eu deveria me retirar da disputa. Mas o que as pessoas mais me dizem é ¿não desista, vá em frente. Nós estamos com você¿ ¿ afirmou ela.

Estrategistas do partido dizem estar preocupados com o que definem como ¿uma cruzada desesperada¿ de Hillary. Há quem classifique sua atitude como ¿uma arrogante teimosia¿. Um colunista do ¿New York Times¿ classificou a campanha dela como ¿a audácia da desesperança¿. Donna Brazile, que foi gerente da campanha presidencial de Al Gore, disse ontem que ¿é desalentador ver pessoas atirando tijolos umas nas outras¿. E concluiu:

¿ Acho que a senadora Clinton está esperando por um milagre. E ela vai precisar de um...

As chances de Hillary ainda são matematicamente possíveis, ainda que muito improváveis. Obama leva vantagem tanto em volume de votos populares quanto na conquista de delegados para a convenção nacional.

¿ Não acho que ela não tenha chance, mas o caminho para uma vitória sua implicaria em causar tantos danos a Obama, para convencer as pessoas de que ele não é elegível. E isso seria muito ruim para o Partido Democrata ¿ ponderou Matthew Dowd, ex-conselheiro do presidente George W. Bush, atualmente analista político da ABC News.

Partido quer encurtar disputa

Por isso têm havido articulações no partido. O governador do Tennessee, Phil Bredesen, esteve em Washington apresentando um plano de ação endossado por vários outros governadores do partido. O objetivo é encurtar a auto-flagelação política que vem sendo feita nas últimas semanas. Ele está propondo uma prévia eleitoral especial em junho, da qual participaria apenas quem tem o poder de indicar o candidato do partido. Trata-se da ¿primária de superdelegados¿. A idéia é reunir todos os 795 membros desse grupo para uma conversa de dois dias com Hillary e Obama, para que definam qual deles será o candidato. Isso evitaria que o bate-boca público entre ambos, e entre seus assessores, se prolongue até setembro, quando acontecerá a convenção democrata.

¿ Não podemos atravessar o verão com um partido dividido e exausto. A moral da história aqui é que temos um problema e acho que precisamos desligar o piloto automático e tentar encontrar uma solução, pois o que vem acontecendo nos últimos 90 dias vai se tornar cada vez pior daqui por diante ¿ disse Bredesen.

Ontem, 20 grandes financiadores da campanha de Hillary enviaram uma carta para a presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, pedindo para ela esclarecer comentários feitos recentemente aos superdelegados e que seriam favoráveis a Obama, apesar da presidente não ter declarado apoio a um candidato.