Título: Vejo no Brasil um sentido de autoflagelação
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Fonte: O Globo, 31/03/2008, O País, p. 8

Celso Amorim diz que brasileiro não percebe papel do país no mundo e cobra tratamento adequado para viajantes

Um dos principais assessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, faz um desabafo: para ele, há um sentimento de autoflagelação entre os brasileiros em relação ao país. No mundo, todos consideram o Brasil importante, menos o povo brasileiro, afirma o chanceler. Amorim acompanhará nesta terça-feira uma reunião entre autoridades brasileiras e espanholas, em Madri, para tentar interromper as deportações de brasileiros. Para o ministro, há uma obsessão européia pela imigração, e o Brasil não é o único atingido. Referindo-se ao tráfico de mulheres para a região, o ministro provoca:

- Teriam que agir também do lado da demanda.

Eliane Oliveira e Sérgio Fadul

A que o senhor atribui a hostilidade da Europa, especialmente Espanha e Irlanda, a cidadãos brasileiros?

CELSO AMORIM: Não acho que haja uma hostilidade com brasileiros. Há uma obsessão com a imigração e os europeus encaixaram os brasileiros num perfil que, a meu ver, tem dado margem a exageros. Tanto é assim que quando conversamos com autoridades européias, vejo que encaminham a questão de forma positiva. No caso da Espanha, no último dia 15, três dias depois de eu ter falado com Moratinos (Miguel Ángel Moratinos, chanceler espanhol), houve uma queda muito grande do número de deportados.

Esse tratamento mais rigoroso ocorreu em função das eleições na Espanha?

AMORIM: Não digo que isso contribuiu ou não, mas um período pré-eleitoral certamente não ajudaria a resolver o problema. O aumento grande já vinha ocorrendo no último ano, e não no último mês. O problema não é admitir ou não os brasileiros no país, e sim tratá-los adequadamente. A Europa tem uma obsessão com esse problema, e os brasileiros têm que estar conscientes disso. Só que um mau tratamento não se justifica em hipótese alguma.

Por que esse problema é tão localizado? Isso não ocorre com a mesma freqüência em outros países europeus.

AMORIM: Talvez não na mesma dimensão. Como haverá uma reunião no próximo dia 1º para tratarmos do tema, não adianta ficar remoendo. Só que, independentemente do resultado da reunião, isso não quer dizer que os problemas vão acabar. As regras na Europa estão mais rígidas e os países que eram vistos como portas de entrada são os mais rigorosos. O que queremos é um mínimo de moderação e respeito, que não haja injustiças tão óbvias como antes. Quando lemos que existem questões ligadas a outros aspectos, como o tráfico de mulheres, fica claro que também é preciso agir do lado da demanda, com uma cooperação policial. É possível que isso surja no meio das conversas.

O que seria aceitável para o governo brasileiro num entendimento com a Espanha?

AMORIM: Não posso antecipar algo que não aconteceu, mesmo porque a reunião com as autoridades espanholas é na semana que vem.

Não seria inadmissível que um brasileiro fique três dias detido sem tomar banho?

AMORIM: É óbvio. Esses aspectos certamente serão tratados. Mas não temos metas quantitativas, não temos números, como 24 ou seis horas. O ideal é que fique o mínimo possível, com as melhores condições possíveis e que não haja exageros.

E quanto à Irlanda? Semana passada brasileiros foram deportados de lá.

AMORIM: Os três estudantes que foram presos na Irlanda voltaram para Portugal, onde residem, graças à intervenção de nossa embaixada em Dublin. Senão era possível que eles retornassem para o Brasil, o que seria um problema maior. Há uma intolerância, não há dúvida, e isso não é bonito para a Europa. Quero lembrar que nossa política não é de ameaças. Defendemos o respeito e a dignidade do cidadão brasileiro. E quem nos trata mal não pode esperar que vá ser tudo bem. É o princípio básico das relações internacionais. Mas não quero mais voltar a esse assunto.

Na última quinta-feira, o presidente Lula chamou o venezuelano Hugo Chávez de pacificador na crise entre Equador e Colômbia. Não seria uma contradição, uma vez que Chávez adotou um discurso bélico e ainda ameaçou enviar tropas para a fronteira?

AMORIM: O presidente Lula estava falando efetivamente do papel que o presidente Chávez teve no Grupo do Rio (formado por presidentes latino-americanos, que se reuniu dias depois da invasão de tropas colombianas no Equador). A reunião foi tensa, cada um com seu ponto de vista, com discursos muito duros, tanto nos casos de Rafael Correa (Equador) como de Álvaro Uribe (Colômbia). O discurso de Chávez mudou o tom. Esperava-se que fosse colocada mais lenha na fogueira e, ao contrário, foi um discurso pacificador.

A participação ativa do Brasil em negociações importantes, como o processo de paz no Oriente Médio, não ajuda o país em sua candidatura a uma vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas?

AMORIM: Isso será conseqüência em algum momento. Mas não se pode ver as ações do Brasil por esse ângulo. Há uma percepção de que o Brasil é um país que tem potencial de ajudar. Onde há menos percepção é no Brasil. De fora, todos vêem o Brasil como o grande país que é, um país pacífico e com potencial de ajudar muito. Embora haja um interesse crescente pela política externa, que está se tornando cada vez mais popular, vejo no Brasil um sentido de autoflagelação. Não sei se isso corresponde a interesses de setores ou se simplesmente as pessoas não estão acostumadas e têm medo de desempenhar um papel mais importante nas relações internacionais. De alguma forma, as pessoas têm medo do novo. Temos um papel importante a desempenhar no mundo, participar de questões internacionais, influenciar em questões importantes para a paz e o desenvolvimento.

O candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, John McCain, defendeu a saída da Rússia do G-8 (grupo dos países mais ricos) e a inclusão do Brasil e da Índia. Qual a sua interpretação?

AMORIM: Se fosse o Sarkozy (Nicolas Sarkozy, presidente da França), não seria uma surpresa, pois os franceses sempre tiveram uma visão mais voltada para os países em desenvolvimento. No caso de McCain é uma percepção nova, que não existia do Brasil. Para mim, foi o fato mais interessante da semana. Seja quem ganhe a eleição nos EUA, nossas relações, que já são boas, continuarão assim. Também tenho lido as declarações de Hillary Clinton e de pessoas que trabalham para Barack Obama (candidatos democratas) sempre muito positivas em relação ao Brasil. A Condoleezza Rice (secretária de Estado americana) veio aqui e disse que o Brasil é uma potência global. A própria "Economist" (revista inglesa) e outros órgãos importantes da imprensa mundial têm a visão de que o Brasil faz uma diferença positiva.