Título: Quando a sentença é a morte
Autor: Ventura, Mauro
Fonte: O Globo, 31/03/2008, Rio, p. 9
Nem sempre os réus julgados pelos traficantes nas favelas conseguem escapar com vida
Nem sempre os réus conseguem sobreviver aos julgamentos dos tribunais do tráfico nas favelas do Rio, como foi o caso de B. O garoto de 15 anos, que roubava dentro da própria comunidade, ia ser morto quando o pastor Marcos Pereira, da Assembléia de Deus dos Últimos Dias, intercedeu para salvá-lo, história que foi contada na edição de ontem do GLOBO. A pena de morte foi convertida em exílio. O pastor Marcos tem uma legião de assistentes que funcionam como mediadores de conflitos em centenas de favelas, da Nova Holanda ao Complexo do Alemão, da Chatuba ao Amarelinho.
- Conseguimos tirar da morte de 30% a 40% dos condenados - diz o pastor.
Tem hora em que ele não chega a tempo, e a negociação é feita por telefone. Às vezes, os traficantes desligam, e o réu tem destino incerto. Em outra ocasião, o pastor e dois assistentes chegaram durante uma briga de quadrilhas. Gritaram para evitar o tiroteio. "Não faz isso, em nome de Jesus!". Conseguiram salvar 16 dos 23:
- Não sei o que aconteceu com os demais.
Tem vezes em que os condenados são salvos, vão para a igreja, mas não permanecem.
- Já teve um montão que voltou para a comunidade e morreu - conta. - Tirei um pelo telefone, mas ele retornou. Tocaram fogo nele.
Muitos, porém, passam a integrar as fileiras do pastor. O primeiro resgate aconteceu no começo dos anos 90, em Vigário Geral. O rapaz foi salvo, mas não quis ficar na igreja. Três semanas depois, apareceu morto na Cidade de Deus.
Família estava amarrada na linha do trem
Os mediadores de conflito da igreja estão acostumados a serem acordados de madrugada.
- Às vezes, meu telefone toca às 3h, e um morador diz: "Tem pessoa amarrada para morrer" - descreve o evangelista Rogério Menezes, que quase perdeu a audição do ouvido direito quando um bandido deu um tiro de fuzil a seu lado.
Menezes já salvou uma família amarrada na linha do trem por um homem que tinha ciúmes da namorada. As vítimas geralmente são submetidas a muitas torturas. Quando salvas, recebem os primeiros socorros num PAM próximo à sede da igreja, no bairro de Éden, em São João de Meriti. Um homem foi obrigado a beber um litro de gasolina com fezes de porco. Escapou com a chegada do pastor. Outro levou cinco tiros de pistola .40. Um caso dramático se deu com um agente penitenciário. Ele tinha urinado na comida de um preso. Tempos depois, foi comprar droga numa favela e deu de cara com o mesmo bandido, que estava solto. O agente levou até machadada na cabeça. Já estava num carrinho de mão quando a comitiva do pastor chegou e o salvou. Certa vez, dois irmãos roubaram a boca-de-fumo em que trabalhavam. Menezes e outro mediador de conflito, Álvaro Silva, tentaram libertá-los. Os bandidos fugiram, mas eles os seguiram de Kombi. Irritados, os traficantes deram tiros para o alto e xingaram os evangélicos, até que a dupla de religiosos conseguiu negociar: se a igreja pagasse o prejuízo de R$600, os irmãos seriam liberados. Assim foi feito.
Outro caso impressionante aconteceu com uma moça que tinha envolvimento com um traficante preso e com outro fora da cadeia. O presidiário soube e mandou matá-la. A jovem já estava toda enrolada em fita crepe. O carrasco apontou a pistola para a cara dela e atirou, enquanto o pastor pedia pela vida da moça. A arma falhou, e ela acabou salva.